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A aversão do PT à imprensa crítica

07/09/2011 | Comentários (1) | Por: Altamir Tojal

Texto publicado no Observatório da Imprensa, edição 658, de 6-9-2011. Clique aqui para ler na íntegra no portal do Observatório. Se tiver interesse e paciência, leia também os comentários. Até a manhã do dia seguinte (Dia da Pátria) eram seis, sendo um de apoio. Todos são interessantes e acho que os cinco contrários colaboram para reforçar os meus argumentos, seja pela fraqueza dos enunciados, seja pela truculência dos termos.

Há um morde e assopra no discurso PT em relação à mídia. Agora é notícia que o partido volta à carga em seu congresso contra a “mídia conspiradora e golpista”. Na posse, a presidente Dilma Rousseff dizia que “o barulho da imprensa livre é melhor que o silêncio das ditaduras”.

Não vamos nos iludir: o léxico pode variar de “controle” a “democratização”. Mas a aversão do PT à imprensa crítica aumentará porque não há lugar no mesmo espaço para a democracia e para um projeto de hegemonia que já aparelhou o Estado, adula o capital, domina os sindicatos, administra os movimentos sociais, manda nas universidades e avança sobre as instituições que ainda resistem ao seu controle.

A imprensa, como qualquer instituição, deve se submeter a regras democráticas. Mas quem ama mais a democracia que o poder não demoniza a imprensa crítica nem propõe limitá-la quando está por cima, porque sabe que vai precisar dela quando não for governo. A intolerância ao jornalismo crítico é o ponto de contato entre ditadores e arrivistas – é o que têm em comum o desesperado Bashar al-Assad, quando proíbe jornalistas estrangeiros em seu país, e o atrapalhado David Cameron, quando propõe aumentar a vigilância na internet.

A imprensa e a conta da inflação

09/05/2011 | Comentários (0) | Por: Altamir Tojal

Veiculado no Observatório da Imprensa em abril de 2011.

É recorrente a dúvida sobre a propriedade inflacionária das notícias e comentários sobre ameaças de descontrole de preços. A questão voltou agora, com os índices perto de 6,5% ao ano, o limite superior da meta do governo, e o debate sobre o melhor jeito de segurar o dragão. A imprensa está exagerando e botando lenha na fogueira?

A inflação é um tema crucial na vida de todos, principalmente do trabalhador. Mais inflação significa menos comida para os mais pobres, menos acesso à educação, pior qualidade de vida no presente e menos oportunidades no futuro.

Salário menor

A definição mais simples de inflação é salário menor a cada dia pelo mesmo trabalho. Para fazer conta redonda, se a inflação chegar a 10% ao ano, o assalariado vai trabalhar três dias de graça no último mês antes do reajuste. É um roubo, que poderia ir para as páginas de polícia.

Não parece razoável, portanto, querer que a imprensa trate a inflação com delicadeza, para evitar especulação, como também não é boa ideia esconder o Massacre de Realengo, para não estimular outros psicopatas.

O que merece reflexão na cobertura da inflação é a abordagem pseudocientífica. Tem muito economês e matemática, mas os maiores interessados ficam boiando sobre a razão do aumento da conta do supermercado e mais ainda sobre as alternativas de solução.

Ganhadores e perdedores

A cobertura predominante não dá conta do jogo de ganhadores e perdedores. Enquanto o assalariado perde, os investidores ganham. No final de um ano, com 10% de inflação, cada trabalhador de salário mínimo vai estar perdendo R$ 54,50 por mês. Quando o governo sobe os juros em 1%, os investidores ganham mais R$ 15 bilhões por ano, considerando a dívida interna de R$ 1,5 trilhão. Estes são apenas dois exemplos.

A discussão hoje está centrada no suposto dilema entre aumentar mais os juros ou apertar o crédito, entre outras medidas “macroprudenciais” (que nome!). O segundo caminho parece ser o preferido do governo e do Banco Central, porque sacrificaria menos o ritmo de crescimento econômico.

O problema é que não dá para confiar em nenhuma das duas saídas. O Brasil já paga a maior taxa de juros do mundo e desconfia-se que as tais medidas “macroprudenciais” equivalem a enxugar gelo, diante da enxurrada de dólares, do aumento do petróleo e da volta da indexação.

Esgotamento do pacto

Tudo indica que essa incerteza pode ser sintoma de um processo que vai além do debate econômico. Trata-se do esgotamento do pacto entre os bancos (e grandes empresas) e o governo, que assegurou, por um lado, lucros (acumulação de capital) nunca vistos no país, e, por outro, frouxidão nas contas públicas para garantir poder eleitoral.

Se isso for verdade, a tarefa que se coloca para a mídia é ainda mais complexa que descobrir causas, debater soluções e revelar ganhadores e perdedores no jogo da inflação. Será preciso articular tudo isso com a guerra política.

Pudor excessivo

Participei, na semana passada, com um breve depoimento, do Programa Observatório da Imprensa, na TV Brasil, que discutiu a cobertura da inflação pela mídia. Ancorado pelo jornalista Alberto Dines, houve um debate com o professor Luiz Roberto Cunha (PUC/RJ), o editor de economia Pedro Cafardo (Valor Econômico) e o colunista Vinicius Torres Freire (Folha de São Paulo).

Guardei desse programa a impressão de que fontes e jornalistas estão tratando do tema com pudor excessivo. Creio que há confiança demais nas técnicas à disposição do governo. E há pouca reflexão sobre a complexidade do problema. A volta da inflação é hoje uma ameaça real no Brasil e é um problema grave e difícil.

Perda de cidadania

A vitória sobre a inflação, nos anos 90, foi tão importante para os brasileiros quanto a redemocratização, na década de 80. A redemocratização trouxe a cidadania política. A estabilidade da moeda trouxe a cidadania econômica.

Com a inflação os pobres perdem muito, a classe média sofre, mas se defende, e os ricos ganham. Além das implicações econômicas e políticas, a inflação significa degeneração moral. Ao perder a referência do valor do dinheiro, a pessoa também perde dignidade e cidadania.

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