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FALSO DILEMA

01/01/2003 | Comentários (0) | Por: Altamir Tojal

Publicado no jornal O Globo, em 28 de janeiro de 2003.

"Tudo cruel
Tudo sistema
Torre Babel
Falso dilema"
"Cruel", de Sérgio Sampaio, gravada por Luiz Melodia e o Coro da Escola de Música da Rocinha.



A história é uma dama rejuvenescida pelos milagres da cosmética, da plástica e dos antioxidantes. Ou um senhor de cabelos e bigodes pintados. Desponta com jeito de nova, mas... A questão da escolha entre o sistema e o terror se repete. Por que temos de tomar partido na luta do mal contra o mal?

O artigo O lado elegante do terrorismo, de Olavo de Carvalho (O Globo, 25.1.2003), reaviva a lembrança do embate entre Jean-Paul Sartre e Albert Camus no fim dos anos cinqüenta. A guerra de independência da Argélia transformou os dois amigos em adversários irreconciliáveis, como observa José Nêumane em outro artigo recente, A ética de Camus contra o terror de Sartre (O Estado de S.Paulo, 19.1.2003). O apoio de Sartre ao marxismo alinhou incondicionalmente suas posições: escolheu o seu lado na bipolarização da época e, portanto, condenava a tortura como método do exército francês para arrancar confissões dos rebeldes, mas justificava os atentados terroristas dos árabes contra os argelinos descendentes de europeus. Camus, argelino, filho de colonos franceses, condenava o terrorismo com a mesma energia que denunciava a tortura das tropas de ocupação.

Por que temos de apoiar Bush ou Saddam, que simbolizam hoje a oposição entre sistema e terrorismo? Olavo de Carvalho põe no mesmo barco Bin Laden e Noan Chomsky, os que explodiram o WTC, detonam supermercados e danceterias, com os que denunciam a truculência da globalização e a barbárie da exclusão. O seu equívoco, quando propõe a caça aos que supostamente apóiam o terror por se oporem à guerra, é não perceber ou não querer enxergar que Saddam e Bush são filhos da mesma chocadeira. Foram as potências colonialistas e neocolonialistas que abusaram do poder de criar estados artificiais e promover tiranos para governá-los. Quem deu sustentação à ditadura sangrenta de Saddam nos massacres que promoveu contra os curdos e toda oposição? Quem turbinou o talibã? Um doce para quem responder.

Não podemos dizer que não temos nada com isso, até porque a cada bomba do terror e a cada rompante do império a nossa moeda desaba e a esperança renovada do brasileiro se arrepia. A toda hora o mundo cai na nossa cabeça. Olavo de Carvalho usa sem parcimônia a palavra "vítima". Os intelectuais, o show business e a mídia estariam obstruindo o direito de defesa das vítimas do terrorismo. É recomendável alguma reflexão sobre o conceito de "vítima".

Vítimas, primeiro, são os excluídos do mundo, os que não se educam e não têm trabalho, os que sequer têm meios para se defender da cooptação pelos fundamentalismos, seja no Oriente Médio, seja nas favelas do Rio de Janeiro. Vítimas, depois, somos nós, que morremos de vergonha (ou deveríamos) com essa situação e não temos sossego, vivemos com medo da violência na esquina e no outro lado do mundo. Podemos explodir daqui a pouco, aqui ou lá, de um jeito ou de outro. Ninguém está a salvo, nem nas cidadelas da moda, com porteiros eletrônicos, câmeras, guardas e guaritas. Todos somos vítimas e o sistema é o terror.

Bush vem da pior linhagem da política americana, onde truculência e arrogância se misturam com fraudes e maracutaias. Não merece procuração de ninguém para defender as vítimas do terrorismo. Além do mais, ninguém pode garantir que o day after da guerra será a paz. Temos todo o direito de desconfiar que será mais arrogância, mais truculência e mais exclusão. E, portanto, mais nutrientes para o próprio terror.

A denúncia do terror, seja o dos atentados, seja o do sistema e da guerra, não obstrui a defesa de nenhuma vítima. Pelo contrário, introduz um idioma comum, desfaz a Babel do mal e renova a esperança de que o bem é possível.



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