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OáSIS AZUL DO MéIER

OÁSIS AZUL DO MÉIER

Editora CALIBÁN / 2010

Oásis Azul do Méier reúne oito histórias com diversidade de temas, ritmos, vozes e construções narrativas. Há em comum o encontro do insólito com o trivial e, também, a paisagem da cidade do Rio de Janeiro. Eis as sinopses dos contos:

Rosto de santo – Aventuras e desventuras de um homem condenado no tribunal a cometer um crime terrível, que justifique a sua pena.

Herói – Delírios de um defunto que ignora a própria morte ou o desconforto de estar dentro do caixão no próprio velório.

Náufrago – O autor conhece por acaso a única pessoa que leu o seu livro, depois de persegui-la por muito tempo e de ter desistido de encontrá-la.

O último ônibus para Copacabana – Abandonado pela mulher, um cara passa a véspera de Natal com uma garota de programa na zona portuária do Rio.

Bodas – Esperanças e fracassos do casamento numa tórrida e melancólica despedida de solteiro.

Marcela – Encarnação do diabo, uma moça poderosamente sensual evita um desastre corporativo numa feira de negócios.

Oásis Azul do Méier – Um bancário barrigudo passa uma tarde de amor com a jovem esposa de um policial campeão de tiro.

Buraco – Milhares de pessoas assistem com respeitosa atenção um velho desaparecer numa cova, no cruzamento das avenidas mais movimentadas do Rio de Janeiro.


É muito comum, no meio literário, a idéia de que o conto é um gênero menor. Exige menos esforço, é menos profundo, serve como uma espécie de exercício preparatório, permitindo que o escritor aperfeiçoe seu estilo e ganhe o fôlego indispensável para os vôos mais altos do romance.

Curiosamente, grandes autores que cultivaram ou cultivam a história curta pensam precisamente o contrário; e basta lembrar Machado, Conrad, Tchekhov, Maupassant ou Borges para perceber a que altura o conto pode chegar, quando merece respeito.

Altamir Tojal é desses que têm alto apreço pelo conto. Fez o que muita gente considera o caminho errado: publicou primeiro um romance (Faz que não vê) e agora nos dá esse Oásis Azul do Méier, coletânea de oito narrativas, fruto de um meticuloso trabalho de depuração.

A arte do romance talvez seja similar à da pintura: ambas acrescentam coisas a um fundo branco. O contista se parece mais ao escultor, porque escrever um conto é retirar palavras.

Esse é um dos maiores méritos de Altamir: sua língua é precisa, exata. Embora haja emoção, não existe subjetividade. Altamir é um prosador formado na escola de João Cabral.

E conhece bem o fundamento do gênero: o conflito se define logo nas primeiras linhas – geralmente uma situação absurda ou inusitada que contrasta com o caráter trivial das personagens – e nos prende a atenção até a surpresa do desfecho.

Ouso dizer que este Oásis é um dos melhores livros de contos que surgiram na literatura brasileira, nos últimos tempos. O conto-título, inclusive, é uma obra-prima que certamente marcará presença em antologias futuras.

Fico, assim, muito honrado por assinar essa modesta apresentação; e particularmente feliz por perceber que a nobre arte do conto ganha mais um cultor, que se apresenta já em plena maturidade.

Alberto Mussa

HERÓI

Alex acordou assustado no meio da noite. Ana tinha ido mais cedo para casa. Estava triste de verdade. Chorou. Ainda chorava quando o táxi desceu o tobogã do Túnel Rebouças. A Lagoa refletia o céu avermelhado. Não se cansava daquela paisagem. O cartão-postal mais bonito do Rio. Os carros avançavam devagar. Pressa pra quê? O lusco-fusco virou noite e Ana manteve os óculos escuros. A noite estava quente e Alex tinha sede. Mas não se movia, não se animava a levantar. O táxi chegou à casa de Ana muito depois. Ela ainda mantinha os óculos. Não tirou desde que soube da morte de Alex. A tarde ia pela metade quando Lia ligou e deu a notícia. Lia amava Alex e soluçava. Ana pouco falou. Olhou, da janela do escritório, a claridade radiante da tarde, catando os óculos na bolsa entulhada, as mãos remexendo carteiras, escovas, pentes, batons, papéis. Desligou o telefone e correu para o banheiro. As lágrimas escorriam. Ironia. Alex sorriu. Não contava com essas lágrimas. Ana voltou para a mesa de trabalho e ligou para o namorado. Desmarcou o encontro de logo mais. Estava recomposta. Decidiu ir logo embora. Na calçada, antes de chamar o táxi, percebeu que estava vestida para outro. Imaginou como Alex gostaria. Começou um sorriso, mas não terminou. Tinha de ser elegante. E sensual. “Isso”, ele balbuciou com a boca seca. Ela iria de preto, como pede a ocasião. Com o vestido que fez os olhos dele saltarem nela na última festa. Mesmo com Lia do lado. Meias pretas. E uma pequena coisa, um pormenor vermelho no vestido. Sangue. Rubi. Uma flor. Qualquer coisa. Ela sentaria, cruzaria as pernas e ele desejaria por as mãos nas suas coxas. Iria sem meias. Pronto! Ele enfiaria as mãos. Forçaria um pouco. E as coxas cederiam. Quentes e úmidas. Alex tomou coragem e se mexeu na cama. Sentou devagar, apoiou as mãos nos joelhos e espiou a escuridão. Estava ensopado de suor. Ana pagou ao motorista, alcançou depressa a portaria do edifício e entrou no elevador. Tirou os óculos enfim e viu os olhos vermelhos e a maquiagem borrada.

Alex estava desconfortável no caixão. Mais que desconfortável. Sofria. Estava humilhado. Ouviu alguém dizer que não suportava velório. Mas aquele estava valendo, pelo decote de Lia e as coxas de Ana. E pelo decote de Ana e as coxas de Lia. Alex também odiava velório. Sentia vergonha pelo morto. Um coitado metido no meio das flores. Uma mosca pousou na cara dele, depois na boca, na ponta do nariz. Estava vexado, exposto à curiosidade alheia, sem poder reagir. Morrer é uma merda. Velório é a morte em dobro. É morrer de vergonha. Dois caras conversavam perto do caixão. Alex quis reconhecer as vozes. “Você comprou? Comprou? Eu disse! Agora vende”. No outro lado, alguém se desculpava. “Não dá. Não posso ficar para o enterro”. E saiu. Ana cruzou e descruzou as pernas. Ajeitou os óculos pretos. Uma pequena rosa no peito. Vermelha. Chegou mais um. Rabiscou o nome no livro e foi apressado até o caixão. Olhou de relance o rosto de Alex. Lia, de tempos em tempos, enxugava uma lágrima e secava o nariz com um lencinho. O apressado olhou o relógio.

Alex arranjou forças e se levantou. Foi tateando até a cozinha. Abriu a geladeira. A luz incomodou. “Herói que se preza, herói mesmo, não morre desse jeito”, pensou. “Um herói não pode morrer assim”. Ele pegou a garrafa d’água e imaginou uma morte digna. Explodir com uma bomba. Ser pulverizado. Naufragar e ser devorado pelos tubarões. Perder-se numa floresta imensa. Na Amazônia! Ser atacado pelos bichos e ser comido pouco a pouco pelos insetos e pelos vermes. Decompor com as folhas encharcadas da chuva, dissolver, ir sendo drenado para o rio, navegar com os peixes, algas, barro, os restos de tudo e chegar ao mar como um plâncton solitário. É por isso que tem gente que anda por lá, naquele calor de derreter. Mosquitos, cobras. Voando em aviõezinhos. Em helicópteros caindo aos pedaços. É gente que quer morrer direito, sem apodrecer na frente dos outros. Enfim! Enfim! A mata chega depressa. Alex vê o verde disparar para ele. Sente as entranhas forçando a garganta. Agarra com força os braços da poltrona, crava os dedos. Fecha os olhos e ouve a explosão.

(Em produção)

OS NÁUFRAGOS SOBREVIVEM

Por Marcio Renato dos Santos, Gazeta do Povo, Paraná, edição de 1 de agosto de 2010

Há muitas estratégias para tentar evitar a solidão. Altamir Tojal conhece algumas dessas possibilidades e faz disso ficção.

Os oito contos de Oásis Azul do Méier são representações literárias de como o ser humano não consegue lidar com o que chama de "estar só".

"O último ônibus para Copacabana" é um conto de Natal, e mostra um sujeito (João) que, na véspera das festas de fim de ano, só encontra conforto na companhia de uma acompanhante remunerada e, mesmo assim, não consegue diminuir o desconforto que é o silêncio que separa dezembro de janeiro.

O conto que dá nome ao livro é, desde já, um clássico da ficção brasileira.

O enredo apresenta um vendedor de quinquilharias que, inesperadamente, participa de uma aventura inesquecível. Edgar, mesmo com o casamento em ruínas, havia deixado de pensar e de olhar para as curvas femininas, inclusive as muitas que desfilam pelos calçadões à beira do mar em Copacabana, Ipanema e Leblon.

Mas, durante uma tarde, ele sai de casa para entregar um pinguim usado a uma cliente e, enquanto é costurado um envolvimento sensual dentro de um apartamento, simultaneamente o narrador mostra os movimentos do marido da mulher que vai cometer adultério. Ele, o que será traído, é policial, sabe atirar, e decide sair do trabalho mais cedo porque sente o desejo de presentear a esposa com rosas.

Somente o leitor e o narrador sabem que a esposa do policial está se insinuando e vai deitar com um desconhecido enquanto o marido, em cima de uma moto, dispara pelas ruas de um Rio de Janeiro quente e com cores fortes, aspectos que Tojal também imprimiu em outros textos inventivos do livro.

Os náufragos, que são os personagens criados por Tojal, sobrevivem, como todos sobrevivemos às chibatadas do destino, apesar de desilusões e da perda de cores em eventuais óculos de arco-íris.


UM MUNDO IMPOSSÍVEL DE TOJAL

Por Fernando Molica, publicado no Blog Pontos de Partida, em 2/8/2010

O amigo Altamir Tojal lança amanhã, terça, na Travessa do Leblon, a partir das 19h, seu livro de contos Oásis azul do Méier (Calibán Editora). Comecei a leitura na semana passada e tomei um agradável susto. Autor do romance Faz que não vê (2006), Tojal se reinventou no novo livro: não que este seja melhor que o primeiro, mas as diferenças entre eles são muito grandes. As narrativas são surpreendentes, apresentam personagens meio patéticos, meio absurdos que se deparam diante de situações inusitadas - como a de um condenado à morte que precisa cometer um crime para justificar a sentença prévia. Ou como a de um autor em busca de sua única leitora.

Tojal levou seus personagens a uma perigosa beira de abismo - um passo em falso e todos cairiam. Soube, porém, mantê-los vivos, tensos e instigantes, protagonistas de uma prosa que flerta com o delírio da poesia. Não é gratuito o elogio de Alberto Mussa que, na apresentação de Oásis, o classifica de um dos melhores livros de contos da produção contemporânea brasileira. Ah, Tojal mantém um blog, o Este mundo possível.

http://www.fernandomolica.com.br/blog/2010/08/um-mundo-impossivel-de-tojal.php


O PINGUIM DA GELADEIRA

Contos trazem as deliciosas recordações do subúrbio
Por Sonia Araripe*

Os bronzeados e tão bem fornados da Zona Sul carioca que me perdoem. Mas bom mesmo é o subúrbio. Isso, o legítimo e autêntico, da cadeira na porta para bater papo com vizinho – aproveitando para fofocar a vida alheia – do pastel gorduroso na feira, acompanhado de um bom caldo de cana feito na hora, da pelada em campo de rala-côco aos domingos, pipa no ar, bola de gude, e, é claro, pinguim em cima da geladeira.

Nada contra esta gente morena e saudável andando no calçadão do Leblon ou de Ipanema. Quiçá da Barra da Tijuca, Eldorado de plantão, Miami tupiniquim. Mas é no encalorado - e muitas vezes empoeirado – subúrbio, que se encontra o verdadeiro espírito carioca. Do samba de raiz, da empada de comer esfarelando (sem falar ao mesmo tempo, por favor), da cerveja nem sempre gelada, da senhora com bobs na cabeça, mesmo se o lenço teimar em deixar aparecer, da vaquinha para o presente e por aí vai. Ah! E tem o pinguim de geladeira.

Tive a sorte - ou nem tanta - de ser caçula dos dois lados da família. Raspa de tacho, mal tive tempo de conhecer os avós. Assim, não me lembro se na casa da minha avó paterna tinha um pinguim em cima da geladeira. Acho que não .... Ela gostava de um bibelô, mas cozinha não era lá o seu forte. Gostava mais dos livros, do xadrez, de um bom papo.

Num ponto a memória não falha: lembro de ter convivido na minha infância com vários destes verdadeiros troféus por onde passei. Em várias casas. Na nossa não tinha. A geladeira era daquelas antigas, quase feito uma bolha grande. Mas pinguim não tinha. Em casa de família remediada da Tijuca, isto já era um apetrecho cafona. Aliás, alguém ainda fala cafona? Caiu no esquecimento, num é? Mas me lembro bem do pinguim que encontrei pela primeira vez na casa da avó do meu marido. Que ficava no ... Cachambi, em pleno subúrbio, redondezas do Méier. Como convivemos muito, passei a “adotá-la” como avó. Portanto, na casa da vó emprestada também tinha um pinguim. Lembro também de outro clássico suburbano: os retratos na parede  da criançada em diferentes poses, fingindo que falava ao telefone, com um brinquedo, etc.

Voltei para esta imagem ao ler o recém-lançado Oásis Azul do Méier, do jornalista Altamir Tojal (Editora Calibán, 104 páginas, R$ 20,00). A imagem da capa é uma delícia e já assegura parte do interesse pela leitura. Uma jovem, suburbana legítima, com tudo em cima, está na cozinha. Em primeiro plano, a geladeira branca e o pinguim. Não é mais a Frigidaire que tantas vezes abri pra fugir do calor do Cachambi, mas o bibelô é legítimo!

Em uma subversão, parto direto para o conto que dá título ao livro. O que seria do mundo sem pequenas subversões? E qual não é minha surpresa ao me pegar lendo o livro todo de um só fôlego enquanto o sono não vem. Falando do mesmo subúrbio que tantas vezes visito ou visitei, encontro personagens que parecem saídos da vida real. Altamir entrecorta um texto de tirar o fôlego, com uma descrição de cenário incrível. Quase dá para sentir o lufar de Edgar, curioso e obeso mascate de bugingangas, que irá vender o pinguim macho para fazer companhia para a pinguim fêmea da sensual Marli. Ela, na flor da idade, com tudo em cima. Parece que dá para ver como a gostosona fala, anda... Tem ainda a esposa de Edgar e o marido da Marli. Mas não vamos dar todos os detalhes para não estragar a curiosidade de quem sentirá vontade de conhecer o lançamento. 
Além destes personagens, o pinguim -  macho – está lá, solene, acompanhando, dando o tom e marcando a narrativa. Há outros contos saborosos e marcantes, como Bodas, Marcela, e por aí vai. São oito ao todo. Um livro curto, pequeno (contribuindo para a sustentabilidade, ao gastar menos papel), mas denso, marcante. Altamir Tojal é jornalista de ótima cepa, com passagens pelo Globo, Jornal do Brasil, Isto É e outras redações, tendo migrado há 25 anos no mundo da comunicação corporativa. Antes, já tinha lançado o romance Faz que não vê (Editora Gramond), encarou muito bem o desafio dos contos.

Sugiro uma revanche. Um terceiro livro só de casos e causos sobre o subúrbio. Méier; Cavalcante (de onde vieram Sérgio Cabral, o pai e Sérgio, o filho governador); Del Castilho, Cachambi, Pilares, Engenho de Dentro, Riachuelo, Cascadura, Madureira, indo um pouco mais além, Quintino (do Zico), Campinho, Vila Valqueire e por aí vai. Tenho aqui na mesa um filhote de pinguim, pequeno, mas originalíssimo, presente dos amigos da Revista Piauí, que adotou o bichano como mascote. A turma da Piauí nem deve desconfiar. Mas ele, risonho, sempre de bom humor, certamente, é um legítimo suburbano. Assim como a minha alma.

*Jornalista, nasceu na Tijuca, cresceu na Ilha do Governador, tem alma de suburbana. É Editora de Plurale em revista e Plurale em site, com foco em Sustentabilidade

Publicado do Balaio de Notícias – Aracaju – Sergipe
www.sergipe.com.br/balaiodenoticias/sonia_140.htm


NO CAMINHO CERTO

Por Mônica Melo

Depois de publicar o romance "Faz que não vê", o jornalista e escritor Altamir Tojal explora o universo das narrativas curtas no livro "Oásis azul do Méier" (Calibán). O lançamento reúne oito contos insólitos que apresentam em comum a paisagem pouco apaziguadora de um Rio de Janeiro quente.

A apresentação da obra, sob o respaldo do escritor Alberto Mussa, analisa a singularidade do percurso literário de Tojal: "é muito comum, no meio literário, a ideia de que o conto é um gênero menor. Exige menos esforço, é menos profundo, serve como uma espécie de exercício preparatório, permitindo que o escritor aperfeiçoe seu estilo e ganhe o fôlego indispensável para os voos mais altos do romance. (...) Altamir Tojal é desses que têm alto apreço pelo conto. Fez o que muita gente considera o caminho errado: publicou primeiro um romance e agora nos dá ‘Oásis azul do Méier’, fruto de um meticuloso trabalho de depuração".

Assim, com domínio das técnicas próprias do conto, o autor trabalha histórias inusitadas iniciadas, justamente, em momento de tensão ou suspense para, na sequência, descortinar as circunstâncias que ensejam o aparente conflito. No conto que dá título à obra, por exemplo, ele simula suspense fundamentado em episódios de traição e a tragédia esperada não acontece. Das histórias curiosas, destaque para "Rosto de santo", na qual um réu teria de cometer um crime equiparado à pena de morte determinada pelo juiz. O autor é econômico e, em linguagem direta, faz uso de períodos curtos. Nesse sentido, o conto mais representativo é "Herói", em que um morto se sente desconfortável no seu caixão e humilhado por não poder reagir, no velório, à curiosidade alheia.
A obra sai ao preço de R$ 20.

Publicado na Folha de Pernambuco On line, em 11/8/2010
www.folhape.com.br/index.php/caderno-programa/584226?task=view


SEM OÁSIS, SEM SAÍDA

Por Benício Medeiros (*)

Altamir Tojal despontou para o mundo das letras em 2006 com um romance, Faz que não vê. Seu segundo livro, Oásis azul do Méier, embora de narrativas curtas, poderia muito bem ser lido como uma continuação do primeiro. Este é um dado positivo, pois o bom escritor não é só aquele que escreve bem, mas principalmente o que sabe compor um sistema ficcional próprio e convincente aos olhos do leitor. Não falamos aqui em estilo, mas na capacidade, típica dos bons escritores, de não perder o fio da própria meada e de não trilhar, por imitação ou descontrole, searas já devidamente percorridas. Apesar da incoerência de muitos dos seus personagens e das situações que por vezes protagonizam, os dois livros de Altamir revelam – sinal de maturidade – coerência autoral.

De que trata ele? Basicamente, para resumir o irresumível, do fim das utopias. Utopias políticas, utopias amorosas, utopias religiosas, utopias profissionais. Do desmoronar das mais alentadoras ilusões ao contato nu e cru com uma realidade mais ou menos execrável. No seu primeiro livro, Altamir criou um personagem desencantado ao mesmo tempo com o passado de guerrilheiro e o seu presente yuppie, corporativo. Para usarmos uma linguagem tecnicamente imprópria, seu romance de estréia é mais “realista” que este livro de contos – oito ao todo, entre os quais destacaria “Náufrago”, “Herói” e “Oásis azul do Méier”, que dá título ao volume, três jóias de fino acabamento, embora outros leitores possam ter boas razões para discordar, dando preferência a uma e outra narrativa, pois gosto não se discute e na verdade todos os contos do livro são bons.

“Oásis azul do Méier” é especialmente interessante, como ressalta o escritor Alberto Mussa na apresentação da obra, pois nele Tojal dá de fato um show em matéria de recurso narrativo, fugindo do discurso convencional para contar sua história num texto fragmentado como peças de um quebra-cabeça a ser montado, ludicamente, pelo próprio leitor. Outra diferença a registrar em relação ao seu primeiro livro é que agora Altamir Tojal se abre a uma nova vertente, a do nonsense, pela qual transita, por sinal, com a maior naturalidade. Em “Rosto de santo”, um homem é condenado à morte antes de cometer o crime hediondo que irá justificar a sentença. Em “Buraco”, um senhor elegante, com o auxílio dos poderosos bíceps de um serviçal negro, se faz sepultar sob o asfalto da movimentada Av. Presidente Vargas. Como em contraponto a tal irrealismo, percebe-se uma ênfase do autor na ubíqua concretude da paisagem. O referencial urbano, tradição que remonta aos nossos melhores contistas, de Machado de Assis a Rubem Fonseca, tão desprezada por gerações ulteriores, é saudavelmente recomposta por Altamir, tornando-se mesmo uma marca do seu trabalho.

Seu universo, de fato, é cem por cento carioca. As histórias se passam no Méier, em Copacabana, na Barra da Tijuca, no centro da cidade. É neste espaço emoldurado pelo mar, rodeado de montanhas e castigado por um calor sufocante, que transitam, exsudando suor e sensualidade, seus personagens prediletos: garotas de programa, executivos em crise, cidadãos carentes vagando pelas ruas sem saber aonde ir, esposas e maridos traídos sob espelhos dos quartos de motel. Todos na busca vã de uma saída, de um oásis em meio a um deserto de esperanças. O “oásis azul” do livro, a propósito, é antes uma armadilha mortal, espécie de roleta-russa amorosa, pois trata da visita de um personagem, Edgar, a uma dona de casa suburbana, Marli, enquanto o marido desta, o policial Luiz Paulo, montado na sua moto e devidamente armado, ruma célere e sem aviso para casa. Conseguirá o policial flagrar os dois amantes que suspiram e se enlaçam na sua própria cama? O conto terminará com a cena de sangue que se espera? Não digo, para não quebrar o suspense do futuro leitor.

Parece claro que não há nada de edificante nisso tudo. Diga-se, no entanto, em favor do autor, que nem sempre, ou quase nunca, a boa literatura é “edificante”. Se não fosse assim, para ficarmos só na brasileira, o curitibano Dalton Trevisan não seria um dos grandes contistas da segunda metade do século XX. Entre as muitas maneiras de se ver o mundo, pode-se muito bem escolher vislumbrá-lo pelo lado do avesso. Não significa assumir o encargo da denúncia social, como já esteve na moda, pois não é este propriamente o papel da literatura. Exibir com competência o seu mundo ficcional, nos limites da experiência estética, já é o suficiente, é o que se espera de um escritor. E é o que faz Altamir Tojal. Embora nada judicioso, com os seus contos ele parece propor ao leitor antes de mais nada uma reflexão sobre os desacertos e as aflições deste mundo globalizante, pós-moderno, neoliberal ou seja lá o nome que se possa dar a isto. De quebra, nos oferece o prazer de algumas horas de boa leitura.

Publicado no portal Overmundo: http://www.overmundo.com.br/
(*) Benicio Medeiros é jornalista e escritor.


ANGÚSTIA EM RITMO VERTIGINOSO

Por Tiago Zanoli

Preso, sem mais nem menos, Apolônio encontra-se diante do austero juiz que lhe condena à morte. Proferida a sentença, dão-lhe 24 horas para cometer o crime - "um crime terrível, à altura da extrema gravidade" da punição recebida. Ao final desse prazo, o réu será executado.

Tal qual Josef K., protagonista de "O Processo", célebre romance inacabado do escritor tcheco Franz Kafka, Apolônio desconhece as razões e circunstâncias que o levaram até aquela situação. Recorda-se de ter sido, um dia, arrastado de seu escritório pela polícia. Quando? O tempo decorrido é desconhecido, a memória, nublada. E se há algo de que se arrepende, é de ter pecado pouco. "Merecia pecar mais."

Intitulada "Rosto de Santo", a trama acima, que se opõe à razão e conta com um toque fantástico, dá início ao mais recente trabalho do jornalista e escritor Altamir Tojal, "Oásis Azul do Méier" (Calibán, 104 páginas, R$ 20). Nessa antologia, o autor reúne oito contos que têm em comum personagens tomados pela inquietude diante do vazio existencial.

Carioca de 62 anos, Tojal estreou na literatura em 2006, com o romance "Faz que Não Vê" (Garamond, 198 páginas, R$ 32). A obra narra a trajetória de um ex-guerrilheiro que emerge da clandestinidade no fim dos anos 70 e se enreda vertiginosamente no submundo dos negócios e da política, tendo como pano de fundo o universo sedutor do poder e a busca a qualquer preço de desejos e ambições.

Na recém-lançada antologia de contos, o autor mantém as mesmas características que o baiano Antônio Torres (de quem Altamir, aliás, foi aluno) destacou ao comentar o romance de estreia: o texto ágil, quase telegráfico. Com períodos curtos e cortes abruptos, as tramas se desenrolam em ritmo vertiginoso, tenso. O realce psicológico que confere aos personagens é outro ponto forte das narrativas aqui presentes.

O também escritor Alberto Mussa, que assina o texto de apresentação da obra, observa que um dos maiores méritos de Altamir é "sua língua precisa, exata". "O conflito se define logo nas primeiras linhas - geralmente uma situação absurda ou inusitada que contrasta com o caráter trivial das personagens - e nos prende a atenção até a surpresa do desfecho", escreve Mussa.

Um dos melhores contos da coletânea, "Oásis Azul do Méier", que lhe empresta o título, apresenta um homem de meia idade cuja alegria é comprar e revender quinquilharias - como o pinguim de geladeira que lhe é encomendado por Marli, a jovem esposa de um policial campeão de tiro. Alternando os pontos de vista, Tojal costura uma narrativa que coloca o leitor diante de um adultério iminente. O suspense se forma. Haverá traição? Se sim, os adúlteros serão flagrados pelo marido traído?

A antologia traz ainda o curtíssimo "Herói", que em três páginas narra os delírios de Alex, um defunto que ignora a própria morte e o desconforto de estar dentro do caixão, no próprio velório. Na sequência, "Náufrago" apresenta o encontro casual entre um escritor obscuro e a única pessoa que leu o seu livro, depois de procurá-la durante um longo tempo e ter desistido de encontrá-la.

Em "O Último Ônibus para Copacabana", após ser abandonado pela mulher em plena véspera de Natal, João encontra conforto nos braços de uma garota de programa que encontra em um bar na Cinelândia. No conto "Bodas", uma tórrida e melancólica despedida de solteiro serve como pano de fundo para reflexões em torno das esperanças e dos fracassos da vida conjugal.

Completam a coletânea "Marcela", no qual uma moça poderosa, espécie de personificação do mal, evita um desastre corporativo em uma feira de negócios, e "Buraco", em que uma multidão assiste ao desaparecimento de um velho em um buraco no cruzamento das avenidas mais movimentadas do Rio de Janeiro.

Resenha publicada no jornal A Gazeta, Espírito Santo, em 24 de outubro de 2010.

OáSIS AZUL DO MEIER - Altamir Tojal - Caliban
ISBN: 9788587025524
Literatura e Ficção / Literatura Brasileira

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