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FAZ QUE NÃO VÊ

FAZ QUE NÃO VÊ

Editora GARAMOND / 2007

Aventuras e conflitos de um ex-guerrilheiro no submundo dos negócios e da política.

Faz que não vê, de Altamir Tojal, é um thriller político sobre a trajetória de um ex-guerrilheiro que emerge da clandestinidade no fim dos anos 70 e se enreda vertiginosamente no submundo dos negócios e da política. Lançado pela Garamond, em 2006, o romance tem como pano de fundo o universo sedutor do poder e a busca a qualquer preço de desejos e ambições.

O escritor Antônio Torres destaca o texto ágil, quase telegráfico, que dá forma a uma trama de alta voltagem. “As frases curtas e a seqüência bem dosada dos capítulos, recheados de episódios breves, descritos como num roteiro de filme de suspense, dão ao romance um ritmo tenso”. Em resenha no Jornal do Brasil, Henrique Rodrigues, observa que “o livro narra o processo de escoamento das utopias pelo ralo do pragmatismo destituído de ética”. Outra resenha, de Lúcia Bettencourt, no Rascunho, assinala que “Tojal sacode seus leitores e os incita a seguir de olhos bem abertos”. Benício Medeiros escreveu no site da ABI que “o romance é instigante, desses que não se consegue parar de ler”.


Faz que não vê marca a estréia literária do jornalista Altamir Tojal. E com firmeza. Sua técnica foi calibrada nas redações de alguns dos órgãos de imprensa de maior circulação no país. Não é por acaso que seu texto é ágil, quase telegráfico. As frases curtas, e a seqüência bem dosada dos capítulos, recheados de episódios breves, descritos como num roteiro de um filme de suspense, dão ao romance um ritmo tenso. Mas com toques de lirismo em contraponto, seja ao som do trompete de Miles Davis em Summertime,ou na esplêndida visão da baía de Guanabara, através de uma janela na Praia de Botafogo.

A trama é de alta voltagem. Em tensão, ousadia, risco, terror e medo. No centro dela está a trajetória – e o desaparecimento – do seu protagonista, chamado Delano. Personagem sedutor, controvertido, ambicioso, ele passou das contestações juvenis da década de 60 para a luta armada dos 70, escapando ileso dos contragolpes da repressão militar, e caindo na clandestinidade, da qual emergiu, em tempos de redemocratização - e na condição de yuppie -, para o trepidante mundo dos negócios  

E nele enovelou-se até o pescoço, prendendo-se às malhas de um sistema inescrupuloso, intrincado, que se agiganta como poder paralelo, a corromper a estrutura do Estado, a ponto de envolvê-lo em sua bem montada teia. Logo, este livro é uma radiografia da vida corporativa. E também de uma cidade, em sua realidade de violência, ameaçada pelo caos.

Se, por um lado, Altamir Tojal situa o seu enredo numa fase histórica determinada (a era Collor), por outro fica claro que a história continua, atravessando governos, à direita e à esquerda, e pondo políticos e empresários num mesmo saco de gatos que atende pelo nome de mercado.

Faz que não vê é uma crítica, às vezes cínica, às traições aos ideais de toda uma geração, no atacado e no varejo. O melhor: você o lê sem piscar.

Antônio Torres

Trecho 1 | PONTA DA ESMERALDA

Meus pés na água fresca. Vejo as ondas quebrando e acompanho uma até aqui. Passa fazendo cócegas e mexe a areia no fundo. Cheiro de mar. Brisa, calor, luz da manhã. Marulho eterno. Afago. Alquimia de hálito e sabor. Beijo. Roçar de cabelo e pele. Não quero dar outro passo. Agarro o tempo. Vejo meus pés. Ouço os pés na água e percebo mil olhos soltos no ar, na areia, flutuando nas ondas. Atrás dos coqueiros. Sigo de volta à fuga. O relógio dispara. Corro. Ouço a explosão de cada passo na água.

-x-

Padre Tiago me acolheu em sua casa. Anunciou que vim ajudar na escola e me chamou de Carlos.

Dou aulas para crianças pela manhã e para adultos à noite. Alguns são pescadores e outros trabalham nas pousadas e casas dos condomínios que avançaram nos últimos anos em direção à vila pelo litoral até esbarrarem em dois obstáculos. De um lado, a propriedade de uma família enredada num inventário e, de outro, uma reserva de mata com uns bichos minguados. A invasão está contida. Os outros limites de Ponta da Esmeralda são a beira de um rio sem ponte e a praia, onde sobressai a capela pintada de branco. As pessoas são gentis. A natureza também. A brisa e os coqueiros amenizam o calor e a luz intensa do sol. As jangadas e canoas vão e voltam todo dia. Uma tempestade, vez ou outra. Aguaceiro, raio, trovoada. Vento forte. Dança selvagem das palmas. Demonstração de força. Assusta e encanta. Reaviva a graça banal do murmulho, da sombra, do sopro e da cor.

-x-

Conheço Tiago há muito tempo e perdi a conta das vezes em que um ajudou o outro. É por causa dessa cumplicidade que faço parte da história da vila, mesmo sem ter andado antes por aqui.

Uma vez me descobriu em São Paulo e propôs um encontro. Marcamos num bar de charutaria. O puro, o vinho e a conversa nos levaram àquele estado efusivo que precede a embriaguez. Sorrisos e boas gargalhadas. Emendávamos um assunto no outro quando me falou do plano. Andou um tempão apoquentado com a idéia de que a mata e os bichos desapareceriam de vez com a chegada da ponte e do asfalto na estrada deplorável que termina na outra margem do rio. A vila acabaria junto, como tantas outras, logo que os veranistas comprassem os casebres e as chácaras. Muitas, talvez todas as pessoas aceitassem vender de bom grado suas casas por qualquer ninharia. Como impedir quem nunca viu dinheiro de assinar um papel e enfiar uns caraminguás no bolso? Lembro que ele fez uma pausa comprida. Sugou o charuto e soltou a fumaça junto com outra pergunta. Quem pode ser contra? Nem Jesus Cristo em pessoa convence essa gente a ser contra o progresso. Nem Jesus! Me vi espiando o povo da vila entre Jesus e os caraminguás. Provoquei. Quem sabe a vida deles melhora? Quem sabe você não faz uma igreja maior? Uma catedral? Mais uma baforada de lá e outra de cá. Tiago sorriu espremendo os olhos vermelhos e emendou o sermão. É a quimera do progresso. A riqueza toma o lugar da pobreza, mas não acaba com ela. Pelo contrário. Ninguém acredita, não é? Concordei por camaradagem, no meio de um gole. Ele insistiu. Ninguém acredita. Eu mesmo duvido.

Assustei com o vulto da quimera no meio da fumaça e tive de me concentrar para acompanhar a história. Tiago já estava resignado quando aconteceu o milagre. Uns gatos-pingados começaram a se mexer contra aquilo. Contra a ponte e o asfalto. A favor da mata e dos bichos. E da vila. De onde saiu essa gente? Uma moça, a mais animada do grupo, foi pedir a ajuda dele. Os olhos vermelhos acenderam na penumbra do bar. Arrepiei. Tiago soltou a voz. Fiz o que não devia para convencer o povo. Metralhei nos sermões e em todo canto. Vocês vão fazer o quê depois? Vão morar no mato? Numa favela na cidade grande? Vejam como está a gente das outras vilas. O dinheiro virou pó. Estão mais pobres, morando de favor. A zoeira em volta foi baixando e senti o povo das outras mesas apontando os olhos para a gente.

O padre, a moça e ou outros gatos-pingados repetiram mil vezes a pregação.

Propus um brinde à garota. Tiago parou a história e riu de verdade. Mais vinho macio descendo na garganta. Prendi o rosto dele na mira. Dependendo da moça, qualquer causa compensa. Mas ele não piscou. E tomou o fio da meada. Logo descobriu que a ponte e o asfalto, promessas cansadas de toda eleição, chegavam com força de verdade pela graça de investidores prontos para construir um resort no meio da mata. O pedaço esquecido de paraíso entrava enfim no mapa do mercado. O plano de Tiago era criar uma reserva para proteger a mata. E melar tudo de vez: asfalto, ponte e resort. O povo quisesse ou não.

Foi aí que entrei na história. Um deputado mexia os pauzinhos pelos investidores nos gabinetes de Brasília. Era um prócer da bancada evangélica. Lobava com sucesso licença por licença, verba por verba. Dinheiro e política. Guerra Santa. Minha missão foi ajudar o padre a correr na frente. Nem quis saber quem eram os gatos-pingados nem quem estava por trás. Sempre tem. Fui à luta. Amigo é pra isso. Agendei para Tiago as conversas com a nata da burocracia verde. Meu capital de lobista alavancou a causa. A papelada aterrissou logo na mesa certa e a reserva virou decreto num passe de mágica.

-x-

Naquela noite em São Paulo impliquei com o nome Vila do Desterro. Tiago desconversou, argumentou, contestou, protestou, mas não teve jeito. Insisti outorgado das liberdades do pileque. Quem vai ajudar um lugar com esse nome? Tem de rebatizar. Tem de ser um nome bonito, pra gente querer que fique no mapa. Ele cedeu por cansaço e ficamos ali num brainstorming: Vila do Sol, Canto da Estrela, Pouso do Colibri, Praia do Céu, Barra Dourada, Porto das Palmas, cada nome mais bonito que o outro. Eu sem nunca ter vindo aqui, nem visto uma foto. Batemos o martelo: Ponta da Esmeralda!

E brindamos. Provoquei a vaidade dele com uma aposta. Se emplacar o nome te dou uma caixa do melhor puro cubano.

-x-

Hoje torço para a vila continuar esquecida. O resort não veio, nem o asfalto, nem a ponte. Amém!

Cheguei há três meses. As aulas servem para ocupar o tempo e ajudam a me integrar na vila. Tenho de ser discreto. Não sou nem vou ser um deles, mas procuro não destoar. Quando não estou na escola ou caminhando na praia, fico em casa lendo e escrevendo. Também vou ao bar do Souza, o único daqui. Peço uma cerveja e bebo devagar, vendo a vida passar mais devagar ainda na rua em frente. Às vezes divido a cerveja com outro freguês. Cuido para ser simpático, mas não fico de papo nem demoro muito. O Souza é curioso e já puxou assunto sobre tudo. A sorte é que adora falar. Concordo. Ou resmungo uma dúvida. Quando ele pergunta no meio da prosa, costuma não esperar a resposta e emenda a dele mesmo. Conversa de verdade tenho com Tiago e Maria Laura, a moça animada. Mas as oportunidades são poucas. Ele tem compromissos numa região muito vasta. Missa, batizado, casamento. E conspiração. Visita a capital e vai a reuniões em outros estados e fora do país. Ela é um azougue na indolência tropical. Cuida da escola, é enfermeira e dirige uma ong. Formam um par luminoso. São cúmplices e se admiram. Não disfarçam. Sorriem quando se encontram. Trocam olhares e brigam como namorados. Comungam afinidades que não consegui mapear mesmo do meu ponto de vista privilegiado. A dúvida me desafia. Não são poucas as ocasiões em que é impossível desviar dos pedaços de Maria que escapolem do decote ou da barra da saia. Ou fugir da boca, dos olhos, do rosto todo quando ela ri, fala e escuta. Ou desviar da bunda quando ela caminha. Onda. Dou bandeira. Vértice nu e cego do triângulo. Sei que vêem o meu desejo. Eu especulo, o pensamento para lá e para cá como um prisioneiro caminhando entre os cantos da cela.

Logo perceberam que passo um bom tempo escrevendo. Acham que é um livro. Perguntam. Não dou trela. Mudo de canal. Não tenho mesmo resposta. São fragmentos de histórias que vou zapeando na memória e na imaginação.

-x-

Bem, vou deixar você com Delano no dia da partida. Ele olha o poente e sorri por um instante para ninguém, para o céu vermelho. Está no lugar que criou para viver, à sua imagem e semelhança. Desfruta a companhia do jazz, do charuto e do scotch. Posso atribuir o riso a esses prazeres simbólicos da vitória e da conquista, tão caros aos que estão na ponta empanzinada da cadeia alimentar. Mas não é o caso. O nosso protagonista roda o videoclipe da vida e sorri pela vitória e a conquista, elas próprias, materializadas nos louros da chegada e – o que vale mais – no saboroso sentimento de fruição do percurso.

 

Trecho 2 | PARTE 2

Dia azul. Cecília abre a janela e a brisa renova o ar no oásis da Praia de Botafogo. Delano desapareceu há três meses e ela perdeu a conta das vezes que repetiu a cena no pequeno apartamento. Afastar um pouco a cortina, dar de cara com o Pão de Açúcar, o céu, descer o olhar até a entrada da baía e vir devagar pela enseada, conferir os barquinhos e logo voltar para o céu e encontrar o avião chegando ou partindo do Santos Dumont, o aeroporto com jeito de porta–aviões atracado na Baía de Guanabara. Ela chamava Delano e gozavam o ritual. Ele a abraçava por trás, afastava o cabelo e beijava a nuca, se livrava sem pressa de botões, colchetes e alças do vestido ou da blusa e enfiava as mãos. Quando o avião não estava lá ela insistia para ficarem os dois esperando até aparecer.

Pode ser cinza que também é bonito. Cinza no céu e no mar e verde nos morros e nos jardins do Aterro. Ou preto, com as luzes dos carros, das avenidas, dos edifícios e dos anúncios e os pontos das estrelas. A lua. O brilho na água.

O boeing está lá na direção do morro, subindo em curva. Parece que vai bater no paredão, mas segue. Ela chama Marcão para ver.
Ele encara a claridade, apertando os olhos por trás das lentes. Encantado. Desejou Cecília quando se viram um instante antes. Encontro na portaria do prédio, perfume, os dois muito próximos no pequeno elevador e na frente da porta, enquanto ela procurava, atrapalhada, as chaves na bolsa. Desejou quando entraram na sala. O desejo cresceu quando ela afastou a cortina e ele apreciou a silhueta contra a luz. E fica maior agora, os dois lado a lado na janela, o calor da pele dela chegando nos pelos do braço dele. Briga com o desejo. Vai mudar de assunto. Estão aqui por conta de Delano. O assunto.

– O que você quer saber?
Não espera a resposta.
– Aposto que está vivo. Pode estar nos vendo agora. Voyeur. Sabe se esconder. E vigiar.Atropela.
– Delano era Carlos. Escolheu o codinome Carlos. Não sei porquê. Foi no final de 72 que voltamos a nos ver. Marcamos o ponto na avenida Atlântica, no começo da noite.
Cecília franze a testa e Marcão explica:
– Ponto é um encontro. É como a gente dizia naquela época. Cada membro da organização tinha um codinome. O meu era Pereira. Uma homenagem ao sorveteiro da porta da escola. O cara mais importante na minha infância.
Ela sorri. Ele emenda.
– Delano e eu sentamos num banco de frente para o mar e ficamos um instante com as mãos apertadas. Foi um aperto forte e a minha vontade era dar um abraço nele. Mas não podíamos chamar atenção. Lembro da primeira coisa que ele disse. Pereira, perdemos a guerra. O povo não veio. Não tá nem aí.
Marcão vigia a atenção de Cecília.
– Não sei se isso interessa. Não foi por isso que me chamou...
– Por favor, quero saber sim.
Ela oferece bebida.
– Cerveja!
Eles saem da janela. Seguem em minueto até sentarem, um em cada canto do sofá.
– Ficamos naquele banco um tempão, avaliando a situação e fazendo um plano para salvar a pele. Sussurrando. Não tínhamos mais contato com a organização. Estávamos sem dinheiro, com medo. Delano é o cara mais disciplinado que conheci. Estava no Rio há dias me seguindo. Se chegou quando viu que a cana não estava no meu pé. Ia checar o George. Eu tinha um ponto com uma garota, Flávia, no dia seguinte.
Cecília pensa no jovem Delano e naquelas pessoas. Imagina rostos, olhares, corpos, roupas. Briga para concentrar na história.
– Se tudo corresse bem seríamos um grupo de cinco. A moça, Flávia, vivia numa favela em Caxias com Fuzileiro, um ex–fuzileiro, daqueles que se foderam em 64. David, era o codinome dele, mas a gente chamava de Fuzileiro.
Ri.
– Pois é! Pra que codinome, né? A gente podia chamar de Pedreiro... Era um nordestino atarracado, mulato, passava bem por favelado. Mas ela não convencia. Não conseguia fazer um erro de concordância nem disfarçar o rosto de filha de rico. Dentes perfeitos. Não dá para esconder saúde e beleza. Parou de pentear os cabelos, depois parou de lavar, amarrou um pano, cortou. Nada. Era só sair do barraco que os machos não paravam de olhar e o mulherio de fofocar.
Marcão olha para o nada. Pisca.
– Podia vestir farrapo que não disfarçava a bunda. A mais bonita de Ipanema. Um dia ela sumiu da praia, mas ninguém esqueceu. Foi viver na favela para recrutar o povo, para convencer o povo a fazer revolução. Delano sorriu quando eu disse isso naquela noite. Depois respirou fundo a maresia de Copacabana. Lembro bem. Soltou um puta que o pariu. Depois repetiu mais baixo, olhando para o chão e separando as sílabas: pu–ta–queo–pa–riu!
Traída. Cecília afunda.
– Delano nunca falou.
– Nada?
– Conta! Vai!
– Uma semana depois estávamos os cinco no carro. Ele no volante. Tínhamos um rifle e três pistolas. Entramos quatro no banco. Assalto! Assalto, porra! Todo mundo quieto! Vigiei a porta e os outros dois pegaram a grana. Flávia fez o discurso. Abaixo a ditadura! Isso é uma expropriação para a guerra do povo. Morte ao imperialismo! Viva a Revolução!
Marcão esvazia o copo e espia Cecília embasbacada.
– Conta!
– Delano ficou no carro, com o motor ligado. A eternidade é isso. Foi o que ele disse quando arrancamos. 
Pede outra cerveja. 
– Conseguimos um saco de dinheiro, não sei quanto, e a arma do guarda. Ninguém dava um pio. Delano pegou a Avenida Brasil. O plano era deixar a Flávia e Fuzileiro numa rua de Bonsucesso. Eu e George sairíamos depois. E ele sumiria com o carro. Aquela grana era para nos manter por um tempo e ajudar a sair do país. 
Pára.
– É isso!
Volta à tona.
– Aposto que está vivo. Naquela época a gente estava na pior. Em uma semana ele organizou o grupo. Roubamos o carro e as armas e assaltamos o banco. Depois nossa vida foi escapulir de um esconderijo a outro. Não faço idéia do porquê desse sumiço agora. Mas de fugir ele entende.
Cecília leva Marcão até a escrivaninha. Uma mesa larga e comprida, com um computador e pastas arrumadas do lado. Pega a que está por cima e tira uma folha com anotações.
– Veja como te achei.
Marcão lê com dificuldade. Caligrafia apressada, palavras abreviadas, que vão sendo decifradas por Cecília.
– Então essa Flávia é de verdade?
– É.
– E depois?
– Depois?
Ele hesita.
– É, depois do assalto.
– Lembro do medo. Eu explodia por dentro naquele carro. De medo e de júbilo. E via a mesma coisa nos outros. Deu certo. Ganhamos desta vez. Mas durou pouco. Até o sacolejo. E o tiro. Flávia gritou. Pensei que tinham atirado na gente e acertado o George. Mas não tinha ninguém lá fora. Fiquei aliviado quando entendi a merda. O rifle disparou na mão dele. Peguei a arma e Fuzileiro empurrou o corpo para baixo. Depois deu um esporro no Delano. Pé no fundo, cantando pneu numa rua tranqüila do subúrbio, sem ninguém, nenhum carro atrás da gente. Flávia estava sem cor. Eu também. Senti as entranhas mexendo. Vomitei.

Faz Que Não Vê

CADERNO IDEIAS & LIVROS, JORNAL DO BRASIL, 21 DE ABRIL DE 2007

DECLÍNIO DA UTOPIA PESSOAL

Por Henrique Rodrigues, escritor

O jornalista Altamir Tojal militou na resistência à ditadura e hoje atua como consultor de comunicação corporativa. Alguns elementos da sua trajetória pessoal foram utilizados para a construção do thriller político Faz que não vê, sua estréia no romance. Já decorrido algum tempo entre os anos de chumbo, o ressurgimento claudicante da democracia e os dias atuais, é possível pensar mais criticamente a relação entre esses períodos, de modo a se compreender melhor o cenário brasileiro contemporâneo. O livro narra esse processo de escoamento das utopias pelo ralo do pragmatismo destituído de ética.

Na Era Collor, Delano tem a função de intermediar uma negociação para um investimento milionário na Zona Portuária do Rio de Janeiro, envolvendo-se num emaranhado de interesses de políticos, empresários, sindicatos, além do crime organizado. Como resultado da tramóia, o protagonista é ameaçado de morte, simula o próprio seqüestro e se refugia em Ponta da Esmeralda, um vilarejo isolado no Nordeste de onde conta a sua história.

No romance, as tentações e os vícios do mundo corporativo fagocitam os ideais de resistência e justiça, como se naturalmente processo histórico se encarregasse de suprimi-los. De forma rápida e vertiginosa – e eis que a narrativa de frases curtas se demonstra eficaz – o militante Delano se converte num yuppiegomalinado e financeiramente bem-sucedido. Como bem afirma Antonio Torres na orelha, o romance tem ritmo ágil, quase telegráfico, descrito como um roteiro de filme de suspense.

De fato, o aspecto formal das frases curtas, que em muitos livros soam gratuitamente a serviço de um modismo fragmentário, aqui casa bem com a idéia do romance. Durante o diálogo de Delano com uma deputada, enumera-se os assuntos testemunhados pelo sofá do gabinete: “Do contrabando e do tráfico à receptação e à lavagem de dinheiro. Proteção da polícia. Queima de arquivos. Ah, as licenças que o álcool dá! Línguas soltas. A conversa virou sussurro sobre fiscais da alfândega, delegados, juízes, jornalistas e até donos de depósitos de mercadorias, frotas de caminhões, postos de gasolina, casas de câmbio. Doleiros”. As mudanças de cena, ocorridas rapidamente, sugerem um clima de cinismo nas relações humanas, atropeladas por um mal imenso e abstrato chamado mercado, que justificaria toda a pulverização por que passam os personagens.

A morte simulada de Delano não sugere arrependimento ou tentativa de redenção. É apenas uma fuga, de cujo relato as revelações e denúncias são apenas conseqüências. Cabe a Cecília, ex-amante de Delano, procurá-lo e tentar desvendar o desaparecimento, num dos sutis e, por isso mesmo, valorosos movimentos de lirismo do romance, quando as seqüências de maracutaias cedem espaço a algo que não esteja ligado à busca por dinheiro e poder.

A trajetória declinante do protagonista, na qual a liberdade se converte em oportunismo inescrupuloso, não parece surpreender o leitor. Mas também não é essa a intenção, num tempo em que histórias de corrupção já não chocam mais ninguém. Segundo o próprio autor, inclusive justificando o título, trata-se de uma realidade que “todos conhecemos, mas, muitas vezes, tentamos não ver e esquecer”.

VEJA UMA REPRODUÇÃO DA RESENHA PUBLICADA

 

JORNAL RASCUNHO, JUNHO 2007

DE OLHOS BEM ABERTOS

Por Lúcia Bettencourt, escritora

Faz que não vê é um livro guiado por perguntas. A primeira epígrafe escolhida indaga: "quantas vezes pode um homem virar a cabeça/ fingindo que não vê as coisas?", retirada da famosa canção de Bob Dylan (Blowin' in the Wind). Ecoando essa questão, segue-se um trecho de Bruno Latour que diz: "Em 2010, um jovem pergunta a seus pais: ‘E vocês, o que faziam entre 1975 e 2000?' E os pais, constrangidos, respondem: ‘Nós não sabíamos.' ‘Isso quer dizer que vocês não quiseram saber de nada?', rebate cruelmente o jovem. ‘Sim, nós desviamos o rosto para não ver.' Mas do que exatamente eles desviaram o olhar pudicamente?" (Comment être anticapitaliste - conforme traduzido no livro).

O primeiro romance de Altamir Tojal é uma ficção que, sem tentar trazer as respostas ideológicas de um ensaio político, constrói um suspense em torno do desaparecimento de um bem-sucedido empresário, Delano. Aos poucos, vamos tomando conhecimento do protagonista e de seus amigos, bem como das circunstâncias e razões de sua ausência. A narrativa se interrompe, se estilhaça em fragmentos e se apresenta como vidros coloridos que serão recolhidos por Cecília, pelos leitores e pelos antagonistas de Delano para serem organizados num mosaico que possa dar sentido ao seu sumiço. Mas, ao invés de delinear-se apenas a história de Delano, de sua mulher Elisa, de sua amante Cecília, de seus amigos Tiago, Marcão e Ágata, e de seus antagonistas Vicente e Cristóvão, o que vai surgindo da composição dos fragmentos é um desenho sujo de sangue e manchado pela desonestidade - uma panorâmica desencantada do cenário político econômico do Brasil da Era Collor.

A ambiciosa estrutura do romance se divide em quatro tempos diferentes: um passado remoto, de luta política e armada contra a ditadura militar que se instaurava; um passado mais próximo, que explica as razões para a fuga e a clandestinidade de Delano; e dois presentes que se desenrolam paralelamente - o do idílico paraíso (já corrompido e prestes a ser perdido) de seu abrigo em Ponta da Esmeralda, e o das investigações da idealizada Cecília, a Ci, a mãe do mato, amante que perde e resgata seu amado. Em constantes vaivéns, a história vai desconstruindo os heróis sobreviventes de uma utopia do passado, que se adaptaram à vida mesquinha da política e dos interesses capitalistas. Revela como os interesses do capital vão, insensivelmente, contaminando sonhos e ações. Por mais inocentes que sejam as intenções em seu nascedouro, o intrincado jogo de poder e de influência acaba descambando para a corrupção, o benefício pessoal e o crime.

Numa interpretação moderna, todos são necessariamente culpados, pois a sociedade se sustenta em premissas que só beneficiam os interesses do capital, e não os valores humanos. Por distorções ideológicas, mesmo as intenções mais humanitárias deixam de provocar o bem social para acabar favorecendo as grandes corporações. Todos se tornam peões de um jogo de xadrez cujos contendores se encontram fora dos desenhos do tabuleiro, e jogam sentados em paraísos fiscais e em palácios políticos.

Aproveitando-se de alguns elementos de sua experiência pessoal como ponto de partida para a fabulação, Altamir Tojal construiu o que ele define como um romance de formação. Sua intenção era refletir sobre o problema ético com que se depararam os sobreviventes de uma geração alimentada por utopias frente a uma nova ideologia, de sucesso a qualquer preço:

Uma das motivações do romance era refletir sobre a tensão ética e descrever os bastidores do comportamento de uma parte da geração, na qual me incluo, que sonhou e desejou muito, se apaixonou pelo sonho e não mediu sacrifícios pelo desejo, e parece estar vivendo a frustração de entregar muito pouco: algumas mudanças talvez para melhor e outras muitas para pior

Sob esta atmosfera de desencanto, o romance, escrito entre 2001 e 2005, revela como "as tentações e os vícios do mundo corporativo fagocitam os ideais de resistência e justiça, como se naturalmente o processo histórico se encarregasse de suprimi-los.", com escreveu Henrique Rodrigues, em 21/04/07, na resenha Declínio da utopia pessoal, no caderno Ideias, do Jornal do Brasil. Embora esteja ambientado na Era Collor, os leitores de Tojal se admiram e comentam que a crise ética representada no romance parece longe de desfazer-se, e que os sucessivos episódios dos bastidores políticos do governo atual, tornam o romance mais contemporâneo do que nunca. Tojal esclarece:

A idéia e o início do livro antecederam, portanto, a eleição de Lula em 2002. A trama e o drama dos personagens também nasceram antes disso. Nunca duvidei da lição cotidiana de que a realidade é mais forte que a ficção. E fui comprovando isso dia a dia, na medida em que ia escrevendo e acompanhava cada capítulo dos acontecimentos que produziram a presente crise política no país, tendo como protagonistas alguns dos mais destacados líderes e ídolos dos que resistiram à ditadura e acreditaram na revolução.

Com a banalização das sucessivas crises, numa sociedade em que a ética se apresenta cada vez mais flexível, os leitores de Faz que não vê acompanham uma trama ficcional, mas tão verossímil, que por vezes podem pensar que estão lendo um texto jornalístico de denúncia. Não há, no texto, heróis com quem se identificar. Nem mesmo os personagens do padre Tiago e de Maria Laura, a moça animada, que tentam salvar o paraíso de Ponta da Esmeralda, conseguem se manter invulneráveis no meio das sujeiras que os cercam. Pequenas concessões, interesses justificáveis, um ou outro possível prazer, a lealdade aos amigos, essas são as brechas que vão minando as figuras dos heróis, e transformando-os nos seres humanos e falíveis de uma sociedade em decomposição.

Toda a vez que o foco impiedoso da escrita de Tojal se concentra sobre um dos personagens, é para desmascará-lo. Numa inteligente descrição, o protagonista é revelado como ausências: "Delano é muitos nãos, ausências e carências". Apenas Cecília escapa dessa desconstrução, e se apresenta insistentemente idealizada. Em sua primeira aparição, justifica a própria existência de Delano: "Não fosse mais nada, a vida valeria pelo tempo com ela". Depois, é ela quem resgata uma família da dissolução, e ensina a Delano os caminhos de subida do morro do Borel. O ex-guerrilheiro, que desejaria apaziguar sua má consciência mandando apenas dinheiro para os pobres, começa agora a conhecer o "povo", ver que não se trata de um ideal "Povo" pelo qual se luta, e pelo qual se é abandonado. O povo aqui tem cara, olhos, bunda. E é tão imperfeito como qualquer um. Mas Cecília continua sua trajetória até que "vira Cecília, Ciça. Ci. Amazona. Moça icamiaba. Guerreira da tribo das mulheres sem homem. Estrela Beta do Centauro".

Ironicamente, é essa a personagem que vai revelar o paradeiro de Delano, que denunciará seu esconderijo e colocar em movimento as engrenagens que levarão o romance a seu desfecho. Pode-se dizer que, de Ci, ela se transforma em Eva, e provoca a expulsão de Adão/Delano de seu paraíso. Mas, ao invés da sensação de perda, esse moderno Adão tem uma reação mais aventureira e desafiante e "carimba o passaporte para a vida. Aliviado. A-ni-ma-do. Agarra ansioso a própria alma e faz meia volta.[...] Adão corre para o mundo. Corre!"

Fiel a sua estrutura, o livro termina com uma pergunta, deixando a seus leitores a tarefa de seguir refletindo: "Quem tem saudade do paraíso?" Percebe-se que a crença do autor é a de que não há fuga possível, pois não se pode fugir de si mesmo nem do tempo em que vivemos. Nossa única realidade é o aqui e agora, por mais imperfeito que seja. Devemos, então, aprender nossas lições e seguir em frente, sem lamentações.

O espírito de Delano não se deixa abater. Ele ainda acredita que pode mudar as coisas, e que é preciso tentar, pelo menos mais uma vez. Seus novos caminhos não nos serão revelados, pois ainda estão sendo percorridos. Teremos de descobrir o trajeto por meio dos jornais, das revelações de nosso mundo, que desmascarou tantos Delanos mas que ainda espera resgatá-los.

Antonio Torres, na orelha do livro, destaca que o enredo do romance revelou o sistema inescrupuloso que se agiganta como poder paralelo e chega a corromper a estrutura do Estado, deixando-o aprisionado em sua teia. Se isso se torna patente, também fica evidente a única espécie de reação possível: os heróis de hoje estão nas redações de jornal e nas escrivaninhas dos autores que refletem sobre os temas que nos afligem. Os trabalhos investigativos dos repórteres e as denúncias pelas páginas dos jornais e dos livros são as únicas tentativas de tirar as vendas de nossos olhos que, mais e mais, se acostumam a não ver. Ao afirmar que "não há como fugir de nós mesmos", Tojal sacode seus leitores e os incita a seguir de olhos bem abertos, examinando as figuras públicas e suas motivações, freando o processo de alienação que se alimenta do "faz que não vê."

O AUTOR
Altamir Tojal é jornalista, e começou a se dedicar à literatura aos 50 anos. Estimulado pela oficina de literatura ministrada por Antônio Torres na UERJ, escreveu o livro de contos Oásis azul, ainda inédito. Tendo cursado a Escola Técnica (atual Cefet) durante os conturbados anos 1960, envolveu-se em política estudantil, chegando a ser presidente da União Nacional dos Estudantes Técnicos, mas acabou por se afastar da escola sem se formar, devido a esses envolvimentos. Quando voltou aos estudos, optou por cursar jornalismo, na UFF. Durante o processo de escrita de seu primeiro romance, Faz que não vê, Tojal sentiu a necessidade de retomar os estudos. Optou pelo curso de pós-graduação de Filosofia Contemporânea, na PUCRJ.

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