
Está nas livrarias o belo e arrepiante romance Julia e o Mago, de Cecília Costa. O lançamento será no dia 17/6, quarta, às 19 horas, na Livraria Argumento, Leblon.
Cecília me alegrou com o convite para escrever a orelha do livro. Segue o texto:
Depois de lutar com a morte, de ver a alma voltar para o próprio corpo, Antônio se entrega à aventura de perseguir o amor em todos os instantes da vida e em todas as suas inesgotáveis possibilidades, as mais sublimes e as mais sórdidas. É assim que Julia decifra o mago, seu pai, e vive a aventura de também se desvelar. Ela inventa coragem para minerar os esconderijos da memória e confronta seus encontros e achados com narrativas e percepções do presente. Tudo é movediço e perturbador.
As histórias de Julia e o Mago nos trazem lembranças das alegrias e terrores mais primitivos e não nos deixam fugir do espelho. Evocam os obscuros e renitentes poderes da casa rodrigueana e nos põem a conviver com a opressão, as infidelidades, as conspirações, os pecados e, sobretudo, os amores de toda boa e velha família que se preza.
Este é um livro sobre os limites do amor. Ele nos conduz, em meio a trevas eternas e ao branco vazio, a luzes que cegam. Não vemos os limites do amor porque o desejo é infinito e, portanto, impossível de satisfazer. Antônio se consagra na épica dessa dependência desejante, do desejo que nunca se satisfaz, que é falta e é fora. Ao ressuscitar, o pai de Julia enfrenta a revelação de que não poderá mais fugir do amor fati, do destino de amar a vida incondicionalmente, mesmo o que ela tem de mais estranho e terrível, mesmo a infinitude do desejo.
Cecília Costa, que já havia se desnudado no seu Damas de Copas, explora agora, com Julia e o Mago, limites ainda mais críticos da autoficção. Não faz cerimônia nem tem pudor. Ela alcança, assim, a emoção e a verdade engendradas na tensão entre ficção e realidade, ou seja, o que a literatura tem de melhor a oferecer. Essa potência irrompe tanto nas histórias e personagens como na diversidade e na ousadia da maneira de contar, nas múltiplas vozes e na poesia das palavras, transformando em arte mesmo o mais rude cotidiano.
O livro de Cecília ainda nos presenteia com ricas e interativas alusões à família Mann, desde as matas mágicas de Angra dos Reis e Parati, de onde partiu Julia, a brasileira, mãe de Thomas, autor preferido de Antônio, até as montanhas geladas - e também mágicas - da Suíça.
"Dá, Senhor, dá logo ela ao poeta! A amada, a que passa, a do sonho. Todas e uma. A cada verso, a cada poema, o amor acontece aqui em sins e nãos, junto e além, sempre verdadeiro e feliz, entre estupros e caixinhas de música. Amor ao amor. Mais que isso, amor ao desejo. Portanto, ao chegar à Carta ao Senhor, o vigésimo terceiro canto do livro, se contei direito (aconselho que não pule nenhum), você estará dominado, tomado de absoluta simpatia e total solidariedade ao poeta e também rogará ao Senhor para entregar-lhe a musa em carne, calor e perfume. E penso, leitora, se for você essa mulher desejada, ela mesma, desejará entregar-se depressa. Depois siga lendo - tem mais desejo e poesia - verso a verso, poema a poema.
Roberto Schneider fez muita gente rir e pensar com dois livros publicados nos anos oitenta, O guia do assaltado (Nórdica e Círculo do Livro) e As quatro virgens e a Corrente de Trewis Scott (Círculo do Livro), obras de humor leve e cruel, delicadamente abrasivo. Nesse gênero, há também uma coleção de histórias, ainda não publicadas, O rei e o abutre e outras fábulas da comunicação. Há a dramaturgia de O bom voyeur, em versos de amor e desprezo, desejos supremos e paixões sem fim. O mesmo coração e a mesma voz na diferença do tempo e na diversidade das formas. É uma obra que se evoca e se dá sentido, um percurso preciso no labirinto da literatura, coleção de encontros e escolhas, emoções e descobertas até o lugar da bela poesia deste Eus".
Este poeta nos deixou ao 59 anos, enquanto o seu Eus ainda estava no prelo. Jornalista, publicitário, escritor e pessoa de cultura e humor refinadíssimos, Roberto Schneider estreou como repórter na seleção de jornalistas da revista Visão, onde atuavam Zuenir Ventura, Vladimir Herzog, Luís Weis, Otto Maria Carpeaux e Luiz Alberto Bahia, entre outros. Foi redator publicitário e, mais tarde, diretor de diversas agências de propaganda. Foi chefe da Assessoria de Comunicação Social da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e consultor de comunicação de outras empresas e instituições.
Preparei o texto a seguir como roteiro para a minha participação na Bienal do Livro do Rio 2007. Foi uma sessão do Café Literário (15/9), que também teve a presença de Jorge Mautner e Zeca Fonseca. A moderadora foi a Rachel Valença. Veja também a reportagem Ficção de Verdade, de Ane Aguirre, veiculada no site Paralelos / Globo On.
O prestígio da literatura de ficção me intriga. Afinal, se trata de invenção e fantasia. E as obras arrebatam, influenciam, atravessam séculos, milênios. Grandes autores são ídolos e heróis de suas culturas e da humanidade. Fala-se, em diferentes épocas, de crise do livro e da literatura, e os autores não param de escrever, os editores de publicar e os leitores de ler. A arte da escrita tem sido sempre uma grande aposta na resistência, na liberdade e na esperança.
Especulando sobre o mistério desse prestígio da ficção literária, identifico dois aspectos ou fatores. O primeiro é a proximidade, a intimidade mesmo, dos processos de recriação com o nosso cotidiano. O segundo é o poder de emocionar na recriação literária.
Sabemos que a ficção literária é essencialmente recriação. Inventar histórias é recriar. O que chamamos de criação podemos chamar também de recriação. Os autores inventam a partir de algo. A recriação é ingrediente necessário e inseparável do romance, do conto, da dramaturgia e da poesia. Mas a recriação não é privilégio dos escritores. Longe disso! Trata-se de um processo bastante familiar e assíduo na vida de todas as pessoas. Estamos habituados a recriar e somos permanentemente expostos à recriação. Cito três exemplos dessa intimidade: memória, história e jornalismo.
Memória é recriação. Lembrar é um processo ativo de produção de sentido, não é tirar informação da gaveta ou do computador. História também é recriação. Às vezes é mais difícil resgatar o passado que prever o futuro. O título de um artigo do professor Daniel Aarão Reis - "Este imprevisível passado" - diz tudo. Jornalismo é outra forma de recriação, presente no nosso dia a dia. Aprendi na profissão que o jornalismo é a luta diária pelo poder de informar. Não se trata de opor, necessariamente, verdade e mentira, nem certo e errado, mas de intermediar percepções, paixões e interesses.
Creio que a literatura deve muito do seu prestígio a essa familiaridade de todos nós com processos de recriação.
O outro ponto é a potência de emocionar da recriação literária. Sabemos que a realidade é mais surpreendente e mágica que qualquer ficção. Mas penso que o texto de ficção pode nos conduzir aos mais altos e profundos sentimentos e, também, nos envolver em sensações mais poderosas que as efetivamente vivenciadas ou conhecidas.
Um exemplo: Há alguns anos, li o romance "O primeiro homem", de Albert Camus, e me emocionei fortemente com a saga do colono Henri Cormery na Argélia, com a narrativa de sua morte na Primeira Grande Guerra e com o sentimento do filho Jacques, diante de seu túmulo. A primeira parte do livro chama-se "A procura do pai" e a epígrafe diz: "A você, que nunca poderá ler este livro". No cemitério de Saint-Brieuc, Jacques faz a subtração das datas na lápide e percebe que o homem ali enterrado morrera com 29 anos, portanto mais moço que ele, já um quarentão. Mais tarde, li a história dos personagens reais - Lucien e Albert - na biografia de Camus, escrita pelo premiado Olivier Todd. Tive a impressão de que eram histórias diferentes. São duas recriações, dois belos livros, uma ótima biografia e uma grande obra de arte. Esta, a meu ver, com uma carga de emoção incomensuravelmente maior.
Para concluir, deixo uma questão: na vida contemporânea - que na falta de nome melhor chamamos de pós-moderno - a máscara e o espetáculo assumem status dominante. A manipulação e a fuga através de imagens e representações não é novidade na história. Mas parece ocorrer algo novo agora, um grau maior de artifício, a disseminação explosiva do fingimento e do simulacro. Há uma tendência à banalização da criação (ou da recriação) e da ficção. O poder se supera na capacidade de incorporar vorazmente as forças e energias mais criativas e inovadoras da vida. Entramos num jogo ininterrupto - sem fim anunciado - de versões, cenários e personagens. Então, se a vida se transforma em ficção, que espaço sobra para a liberdade e a esperança na literatura?
XIII Bienal do Livro do Rio
Café Literário
15 de setembro, sábado, às 12h
Recriação literária. Farejando uma história; a fidelidade e a liberdade de criação.
Altamir Tojal, Jorge Mautner e Zeca Fonseca. Moderadora: Rachel Valença.
A resenha De olhos bem abertos publicada no jornal Rascunho, edição de junho de 2007, assinala que Faz que não vê é um livro guiado por perguntas que desafiam a reflexão sobre o nosso tempo. Foi feita pela escritora Lúcia Bettencourt. Ela venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2005, na categoria contos, com o livro A secretária de Borges, editado pela Record. O Rascunho é um dos espaços mais prestigiados do mundo da literatura no Brasil. Recebi a publicação desta resenha com grande alegria e emoção. Lúcia destaca a contemporaneidade do tema e algumas das motivações e desejos que me levaram a escrever o livro, em especial a crença de que não temos como fugir de nós mesmos e do tempo em que vivemos e que isso não significa necessariamente resignação nem cumplicidade.
Esta resenha - Declínio da utopia pessoal - publicada no caderno "Idéias & Livros", do Jornal do Brasil, no dia 21/4, é assinada por Henrique Rodrigues, um jovem escritor completo, que tive o privilégio de conhecer fazendo exercícios e experiências com diversos gêneros - dramaturgia, contos, crônicas e poesia - na oficina do Antônio Torres, na Uerj. Ele acaba de publicar pela Record o livro "A musa diluída", uma coleção de poemas. É um craque, o que valoriza (sem falsa modéstia) os comentários que ele fez sobre o livro.
Seguem comentários sobre o romance Faz que não vê. Alguns foram publicados e outros enviados ao autor.
Benício Medeiros - 22/3/2007 - Seção Jornalistas recomendam (Portal ABI)
Recomendo, com a maior ênfase, o romance Faz que não vê, de Altamir Tojal, um jornalista experiente que agora faz sua estréia como ficcionista. Trata-se de uma história bastante atual (principalmente depois que o Zé Dirceu se declarou capitalista), sobre um ex-guerrilheiro que, depois da democratização, ingressa na selva do mundo empresarial e convive com os traumas do passado e do presente. O romance é instigante, desses que você não consegue parar de ler e, além disso, super bem escrito.
Wady Jasmin - 27/11/06
Bom, Tojal. Muito bom! Para mim, que vivi tantos portos - e, lamentavelmente, sigo vivendo entre surpreso e receoso a cada nova esquina -, melhor ainda.
Lido o livro no sábado, de um só estirão, sai para comprar um, de pura homenagem à fração de texto ao pé da página 110: "Santa Inflação, padroeira dos fortes e mãe da ilusão. Quem perdeu não percebeu. Quem percebeu não reclamou. Quem reclamou não levou"... ou, sei lá, à "grande fábrica de beneficiários e cúmplices", mais adiante, à página 189: "Liberdade para trabalhar mais... Bônus para desmoralizar... Doação para escamotear... Consumismo para fidelizar. Porrada para acovardar."
Sempre achei, Tojal, que o leitor é um navegante por mares desconhecidos. Foi dessa perspectiva que quis ensinar aos meus filhos a beleza de ler enquanto também se constrói um livro que é seu; a mágica de buscar rever sua própria história a partir daquela que o autor generosamente oferece. O mar que naveguei em seu livro era-me certamente familiar; conhecido; quase transparente! E, ainda assim, um mar senhor de tanto mistério que de certa forma pareceu-me nunca tê-lo antes viajado. Fiz que não vi...
Revista Continente Multicultural - Novembro 2006
Adilson Drubscky - 25/9/2006
Fui pra roça nesse fim de semana. Choveu muito. Comida mineira no almoço, queijo e vinho à noite, e boa literatura entre um papo e outro, com uma cochilada no meio, é claro.
Gostei muito do Faz Que Não Vê. Sobretudo da aporia enunciada em 10, pg. 189. A melhor, dentre as muitas com que até hoje me deparei.
Beatriz Horta Correa - 8/10/2006
Excelente texto, original e fluente. O protagonista é bem delineado na sua insatisfação e inquietação. A trama excessivamente sincopada às vezes dificulta o entendimento. Haveria mais o que dizer, mas acho que isso é o principal.
Henrique Pereira - 3/10/06
Se tivesse que resumir o meu sentimento depois de ler o livro eu diria, simplesmente - gostei muito! A história é muito interessante, a forma como você construiu os personagens permite uma imagem bem nítida de todos eles e o ritmo do livro torna difícil parar de ler. Se juntarmos a tudo isto a sua experiência do mundo corporativo e do mundo político, temos todos os ingredientes para um livro de sucesso.
O único ponto que, no inicio, me deixou um pouco desapontado com o livro foi a sua técnica de escrita que você definiu no lançamento como quase um zapping. No inicio me deixava uma sensação negativa mas que, ao longo do livro, se transformou num dos pontos mais positivos. Definitivamente vou ficar esperando o seu segundo livro.
Guilherme Simões Reis - 21/12/2006
Aproveitei o comecinho das férias para ler seu livro. Gostei, parabéns. O maior mérito é, para mim, a sua capacidade de apresentar uma rede de relações nos bastidores dos altos escalões, entre amigos, parceiros de ocasião, rasteiras e inimigos.
Alexandre Moreira - 17/6/2006
Ao terminar a leitura do seu livro custou-me abandonar as areias, os ventos, a vila e os rudes habitantes da Ponta da Esmeralda, ou a vista do contorno monolítico do Pão de Açúcar a esconder parte da rota dos aviões, ou mesmo a enfumaçada e espelhada ambientação dos bares, a claustrofóbica concepção das salas de reuniões, as barrentas subidas e descidas dos morros cariocas, o emparedamento dos esconderijos. Despedir-me do Delano, Cecília, Elisa, Tiago, Vicente, Maria Laura, Cristóvão, Clarissa foi ainda mais conflitante, pois alguns não queria nunca ter conhecido.
Seu livro, na sua construção cinematográfica, de cenas interdependentes, transporta o leitor aos meandros do submundo que sabemos existir e tentamos a duras penas esquecer. Você descreve, com frases curtas e secas, a angústia do viver, seja ele no Joá ou no Borel, sem fazer concessões. Não há invulnerabilidade nos seus personagens. Todos se assemelham, de uma maneira ou de outra, nas suas buscas pela felicidade a qualquer custo, seja lá o que essa felicidade signifique (poder, idealismo, ambição, sexo). Ninguém é herói, a não ser em causa própria. Por isso mesmo, críveis.
Seu talento, Altamir, já prenunciado pelo Antônio Torres, é evidente no seu escrito. Seu estilo é próprio e seus recursos profícuos. Talento e conhecimento.
José Luiz Braga - 8/2/07
Tojal: Acabei de ler seu livro. Foi uma pena ter acabado, pois a gente não consegue parar de ler.
Achei ótimo! Leitura prazerosa, cativante, com excelente ritmo de leitura - parecia até que havia uma câmera sempre mudando de plano - e uma estória que, enquanto prendia, questionava. Aí eu me dei conta de que o titulo do livro já é uma provocação, pois a saga do Delano faz nosso espelho embaçar. Então, continua escrevendo, tá?!
Carlos Maia - 29/9/06
Mas que livro! Resolvi folheá-lo para dar uma espiadela e pronto, fui capturado pelo texto. Parei tudo e devorei a trama, fio por fio. Um prazer para a inteligência do leitor.
A pretexto de escrever ficção o Altamir desenvolveu uma análise potente de aspectos marcantes da realidade tupiniquim. Um senhor ensaio em forma de romance.
Fiquei com diversas inquietações e sinto a necessidade de discutir sobre algumas percepções do texto. Faço uma proposta aos que já se deliciaram: Vamos marcar uma tertúlia com o autor assim que haja massa crítica de leituras?
Mas como não dá para esperar em silêncio, quero adiantar um comentário que não interfira na degustação dos demais leitores. Fui especialmente sensível ao tratamento que o livro dá ao processo de transformações sofridas por aquele grupo de garotos e garotas engajados na rebeldia dos idos de 68, e hoje em torno dos seus sessenta anos.
De tudo que já li sobre a tal "geração 68" este texto é a mais competente avaliação sobre as mudanças nas subjetividades daquela garotada, até nossos dias. É um tratado de subjetivação sem conceder às simplificações usuais.
O lançamento do romance Faz que não vê acontenceu na noite de 27 de setembro (Dia de Cosme e Damião), no Espaço Constituição, um centro cultural instalado num bonito casarão restaurado, no coração do Rio de Janeiro. Mais carioca impossível. Foi um festão com muitos amigos, que começou com um talk show com o autor, Altamir Tojal, conduzido pela jornalista e escritora Sheila Kaplan.
Depois rolou a sessão de autógrafos ao som do sax de Rodolfo Novaes e do piano de Alberto Chimelli. Ótima música, incluindo temas da "trilha sonora" das aventuras do romance. O escritor Antônio Torres, guru literário do autor, e Cristina Oldemburg, diretora do Instituto Oldemburg, e cerca de 300 convidados prestigiaram o evento e curtiram o show musical.
A festa de lançamento de Faz que não vê marcou o início do projeto Talento Literário, que passa a promover a apresentação de obras de autores estreantes, uma vez por mês, sempre na última quarta-feira, no Espaço Constituição. O projeto Talento Literário e o Espaço Constituição são iniciativas do Instituto Oldemburg e têm o patrocínio cultural da Chocolates Garoto.
O talk show rendeu uma hora de conversa sobre o livro, o autor, literatura e também sobre política, que é o pano de fundo do romance e é o tema da hora, com o embate dramático das eleições, desta vez potencializado pela crise que contagia toda a sociedade. Além das questões de Sheila Kaplan, o autor respondeu a perguntas da platéia.
Tojal disse que pretendeu fazer, desde o início, uma história com ação e suspense, contada com muito ritmo. Optou por uma narrativa com diferentes vozes, bastante fragmentada, como um zapping ininterrupto. Esta solução formal foi adotata para conduzir o leitor através da temática central do livro, os caminhos e conflitos de um grupo de remanescentes da resistência à ditadura militar no Brasil.
O desafio, portanto, era fazer um tema reflexivo ser acompanhado com interesse e emoção no corpo da obra de ficção. O que empurrou - de forma irrefreável - o autor a escrever este romance foi exatamente refletir sobre os destinos de pessoas que quiseram tanto fazer o mundo melhor, ao ponto de oferecerem as próprias vidas, e que tiveram e têm de se confrontar com uma realidade diferente e com a crítica e autocrítica dos seus próprios sonhos.
Tenho a alegria de informar que o romance Faz que não vê chega às livrarias esta semana com o selo da Editora Garamond. É o meu primeiro livro publicado. Trata-se de um thriller político que tem como pano de fundo o universo sedutor do poder e a busca, a qualquer preço, da satisfação de desejos, necessidades e ambições.
O livro conta a história de um ex-guerrilheiro que se converte em yuppie nos anos 90 e se envolve numa trama em que se misturam negócios, política e crime. Construído de cenas interdependentes, o romance é ambientado na atmosfera de grandes empresas, gabinetes de autoridades, casas luxuosas e esconderijos de criminosos, conduzindo o leitor aos meandros do submundo que todos nós conhecemos, mas, muitas vezes, tentamos não ver e esquecer.
Comecei a escrever este livro em 2001 e terminei em 2005. Uma das motivações e pretensões do romance era refletir sobre a tensão ética e descrever os bastidores do comportamento de uma parte da geração, na qual me incluo, que sonhou e desejou muito, se apaixonou pelo sonho e não mediu sacrifícios pelo desejo, e parece estar vivendo a frustração de entregar muito pouco: algumas mudanças talvez para melhor e outras muitas para pior.
Como construção literária, o projeto era contar uma história interessante, com bastante ritmo, numa atmosfera de niilismo e desencanto político. Escolhi o tempo da era Collor e uma trama povoada de empresários, políticos, sindicalistas e criminosos envolvendo interesses na decadente Zona Portuária do Rio de Janeiro.
A idéia e o início do livro antecederam, portanto, a eleição de Lula em 2002. A trama da história e o drama dos personagens também nasceram nesta ocasião. Nunca duvidei da lição cotidiana de que a realidade é mais forte que a ficção. E fui comprovando isso dia a dia, na medida em que ia escrevendo e acompanhava cada capítulo dos acontecimentos que produziram a presente crise política no país, tendo como protagonistas alguns dos mais destacados líderes e ídolos da geração política que resistiu à ditadura e acreditou na revolução.
Ao mesmo tempo, eu verificava - às vezes com espanto - a correspondência entre as diferentes erupções da tensão ética dos personagens do romance e o comportamento dos atores da nossa crise política. E isso reforçava aquela motivação original do livro.
Foi com sentimento de orgulho um tanto constrangido que, há alguns meses, recebi do amigo e mestre Antonio Torres o texto da orelha do livro, destacando que o enredo do romance funcionou como trama e também como representação de um sistema que se agiganta como poder paralelo e ameaça a todos enovelar em sua teia, atravessando diferentes eras e governos. Assinalo, de minha parte, que não quis fazer no romance qualquer julgamento moral nem aposta política ou existencial, a não ser na crença de que não há saída da realidade para a utopia e, portanto, que não há como fugir de nós mesmos nem do aqui e agora.