

Fazer jornalismo com jornalistas pagos para exercer a profissão é uma conquista da sociedade que se materializa, nas democracias, em mais compromisso e qualidade, ou seja, mais liberdade de imprensa e cidadania da mídia.
Vale lembrar que não faz muito tempo a profissão de jornalista ainda era um bico no Brasil, o que condizia com o subdesenvolvimento do país e a precariedade das instituições.
O jornalismo era uma segunda atividade para a maioria dos seus fazedores. Raros eram os profissionais que viviam do trabalho nas redações. Tinham de ter outro emprego que lhes pagasse as contas ou se submeter a gorjetas.
Isso começou a mudar com a Última Hora, no início dos anos cinquenta. Seu criador e diretor por duas décadas, Samuel Wainer, introduziu níveis de remuneração que equipararam o jornalista aos demais trabalhadores, o que fez e faz diferença, não só para a vida do profissional como também para o produto do seu trabalho.
Não foi somente esta, nem foram poucas, as mudanças que a UH trouxe ou ajudou a consolidar na imprensa brasileira. Além de dono, Samuel atuava e se portava como jornalista, o que também faz grande diferença.
Ele e seu jornal eram comprometidos com a causa democrática e com a notícia, que são ou deveriam ser os valores mais caros do jornalismo. Introduziram no país um tipo de imprensa popular na temática, na linguagem e na forma gráfica. Com acertos e erros, a UH foi um dos mais importantes jornais que existiram no Brasil.
O livro 'A rotativa parou: os últimos dias da Última Hora de Samuel Wainer' conta, como aventura e drama, o fim desse grande jornal. É o relato de um momento marcante da imprensa e da história do país, através do olhar e da emoção de Benício Medeiros, então um foca, vivendo a dor e a delícia do primeiro emprego de repórter.
É, portanto, também um livro de memórias, que revive episódios e protagonistas da imprensa, cuja influência se estendeu por décadas e alcança o presente. É, ainda, uma obra que oferece o bônus da leitura sedutora, como um romance, às vezes comovente, outras engraçado, sempre incitante, com uma página puxando a seguinte.
Editado pela Civilização Brasileira, o livro traz uma coleção de fotos do acervo da UH carioca, selecionadas no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Os episódios narrados foram vividos ou testemunhados pelo autor. Além de Samuel e seu time de jornalistas, há um desfile de personagens de destaque na vida política, empresarial e cultural da época.
Benício ficou somente pouco mais de um ano na UH, mas a sua narrativa dá conta não só das angústias e esperanças daqueles dias, no começo dos anos setenta, mas também do nascimento, ascensão, glória e agonia do jornal, que foi ferido de morte pelo golpe de 64 e resistiu aos trancos até imprimir a última edição em abril de 1971, um dos momentos mais sufocantes da vida do país. O título foi comprado e sobreviveu por mais alguns anos. Era, porém, outro jornal, apenas como o mesmo nome.
Não foi por acaso que a UH sofreu o estertor no curto período do primeiro trabalho de Benício. Aquele foi o momento mais tenebroso da ditadura brasileira, com a propagação da tortura e do assassinato nos quartéis e, é evidente, com a censura calando a imprensa.
À sua folha de serviços prestados à imprensa, Benício acrescenta mais este. Ao contar o fim da UH, relembra o terror e a vergonha da época, o que nos ajuda a refletir sobre vontades de censura que agora se renovam. Ao lembrar o começo da profissionalização na imprensa, nos anima a imaginar que a ideia de fazer jornalismo sem jornalistas talvez não signifique exatamente progresso para a imprensa e para a democracia.
Não dá mais para tolerar a impunidade. O grito dos estudantes em Brasília, "Arruda na Papuda, PO no xilindró", ressoa o sentimento geral de que ficou insuportável a convivência com o deboche dos corruptos e com a lição repetida de que o crime compensa.
Estamos no apogeu da repercussão desse novo caso de corrupção política, que se revela antiga e metastática no Distrito Federal e que repete outros escândalos recentes.
Todos sabem quem é o Arruda do slogan, o governador José Roberto Arruda, maior expoente do DEM no país. Não é a plantinha medicinal. E, graças à exposição na mídia, mesmo os mais desinformados aprenderam que PO é o vice Paulo Octavio e que Papuda é o presídio de Brasília.
Com a corrupção tão incrustada e espalhada nos três poderes, em todas as esferas de governo, a imprensa faz a sua parte, mas não dá, nem pode dar, cabo da impunidade.
A imprensa noticia, esfrega a corrupção na nossa cara, mas os criminosos continuam soltos. E mandando.
Sem punição, a corrupção é banalizada e se naturaliza. É mais um espetáculo do dia-a-dia, reality show, novela televisiva. As temporadas se sucedem. Alguns personagens saem do ar por uns dias e voltam. Outros nem isso. Seguem assíduos no estrelato do poder.
A execração pública não basta, não é castigo para essa gente, que se vale disso para apregoar a irrelevância do jornalismo. "Quem elege o governante não é quem lê jornal, é quem limpa a bunda com ele", diz em uma de suas gravações Durval Barbosa, operador, conselheiro e algoz do governador do Distrito Federal.
Ou como disse há pouco o deputado Sérgio Moraes, questionado por jornalistas sobre o seu parecer contrário à cassação de outro deputado, Edmar Moreira, o do Castelo de São João Nepomuceno: "Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege".
E assim se reproduz a nossa política, independentemente de matiz. É o eterno retorno do mesmo.
É patética a hesitação do DEM em expulsar do partido o governador Arruda e vergonhosa a omissão com relação ao vice PO e aos demais quadros envolvidos no novo mensalão. E o que dizer do comentário do presidente Lula de que "a imagem não fala por si"?
Ah, sim! Tem de haver defesa dos acusados e julgamento. Mas a nossa justiça...
Há duas semanas o desembargador-corregedor do Rio teve de se afastar do cargo sob suspeita de vender proteção a políticos "ficha-suja". Claro que foi graças a uma série de reportagens. Os mensaleiros do PT e do PSDB estão sendo julgados, mas gozando da impunidade a perder de vista, garantida por artimanhas jurídicas e pela morosidade dos processos.
Desta vez, porém, parece que a abundância de imagens e falas documentadas do escândalo da hora, veiculadas repetidamente, reforçam o clamor por punição de verdade e já, a começar pelo imediato ostracismo partidário, perda de mandatos e mesmo detenções preventivas.
A imprensa não pode ocupar o lugar da justiça, nem do parlamento, nem dos partidos, mas tem de avançar no seu papel, no que lhe cabe. É a instituição que mais combate e expõe os crimes do poder. Não é por acaso que alguns governos do nosso continente e mesmo o nosso a têm como alvo.
Querem controlar os jornalistas e a mídia e, claro, continuar praticando sua política viciosa.
Para não dar razão aos profetas da irrelevância do jornalismo e não capitular aos que sempre querem subjugá-la, a imprensa brasileira tem o desafio de superar a lógica do espetáculo na cobertura da corrupção, de sustentar essa pauta mesmo que a audiência pareça cansada, de não deixar esquecer nenhum nome, nem deixar de cobrar o julgamento e o justo castigo a cada bandido do poder.
É bem conhecido o poder da imprensa na produção de realidades. E sabemos que não há neutralidade nem inocência na informação. Há sempre valor na escolha do que e como informar.
Não é realista imaginar a mídia imune a conflitos políticos e filosóficos e, menos ainda, aos interesses econômicos. Por isso mesmo, devemos ter sempre em conta que notícias e comentários têm o poder de fortalecer e enfraquecer expectativas, de valorizar e desvalorizar ativos e de influenciar decisões de governo.
No caso da cobertura desta crise econômica, parecem prevalecer numa parte importante da imprensa brasileira duas tendências que merecem ser acompanhadas e avaliadas por suas influências e seus efeitos. Uma é a profecia recessionista e a outra é a ressurreição do conflito entre liberais e intervencionistas.
Dizer que a recessão é inelutável é uma idéia tão falsa e nociva como dizer que não há recessão.
Atribui-se, em amplos e privilegiados espaços da mídia, um sentido universal, absoluto e inelutável à recessão, que evidentemente já começou em diversos países. O resultado é a multiplicação do medo e a indução a decisões alimentadoras de mais recessão. É uma profecia auto-realizável, aquela que cumpre a si mesma.
É claro que uma situação grave como esta crise, exige da imprensa esforço para revelar perdas, causas, riscos e ameaças. Mas também é preciso mostrar possibilidades e oportunidades. O trabalho que se faz e o que pode ser feito para atenuar e vencer a crise. E apontar as diferenças. Há os que perdem e também os que ganham. Há os que são mais e menos afetados.
Há decisões que estão sendo e serão tomadas que podem antecipar ou retardar soluções. E que irão alocar os custos da crise entre indivíduos, empresas e países.
Vale observar que a parte da mídia que parece mais empenhada em generalizar e potencializar a recessão é a mesma que mais fomentou, durante décadas, a profecia da felicidade eterna prometida pelos que comandaram a economia global nesse período.
Mais do que noticiaristas e comentaristas, alguns jornalistas foram co-protagonistas dessa história. Hoje, estes mesmos passaram a ser os mais assíduos e radicais disseminadores de informações e conceitos igualmente nocivos à sociedade, agora na direção contrária.
Não é certo que a recessão vai ser tão grave no Brasil como em outros países e também que a única coisa a fazer é esperar a desgraça. É preciso, ao menos, dar espaço à dúvida sobre a possibilidade de sofrermos menos e mesmo de termos oportunidades nesta crise. Na maioria das vezes isso não é considerado ou é desacreditado liminarmente.
Também não é correto dizer que todas as medidas do atual governo são erradas. Isso de culpar e atacar o governo de forma irrestrita evoca a mesma atitude do PT quando era oposição, demonizando o presidente Fernando Henrique. Já é hora da política no Brasil sair deste redemoinho.
A outra tendência da cobertura da crise é a ressurreição do debate entre liberais e intervencionistas. Como isso ressoa a coisa do além, vale recordar o defunto Brás Cubas, em suas Memórias Póstumas: "ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares".
Talvez seja esta compulsão tão humana de confundir público e privado que explique a volta da velha rusga entre liberais e intervencionistas com força suficiente para comandar a pauta da cobertura da crise econômica. Afinal, há muito dinheiro em jogo e a vitória ou derrota de uma idéia, mesmo combalida, significa alguns bilhões a mais ou a menos em rubricas orçamentárias e contas bancárias.
Artigos e comentários revigoram, assim, dilemas duvidosos como estado e mercado; regulação e liberdade financeira; investimento público e responsabilidade fiscal; demanda interna e exportação; e programas sociais e boa governança.
Mais sábio é reconhecer que um lado não vive sem o outro. E ficar atento para o que realmente importa: a briga pelo dinheiro e, sobretudo, a construção do caminho para sair da crise.
Isso vai depender menos desse debate carcomido e mais da lucidez da sociedade e do pragmatismo de governantes para restabelecer o crédito e os investimentos.
O que parece haver de comum nestas duas tendências da cobertura da crise é o efeito de mais turvar que clarear os acontecimentos e as perspectivas de solução. Em horas como esta, em que não há segurança em relação a diagnósticos e remédios, é que a sociedade mais precisa da mídia para se informar e buscar elementos para refletir. É nesta hora que o poder da imprensa é maior. E também é maior a sua responsabilidade por afetar o presente e influenciar o futuro.
Há muito poder no ato de informar. Não há neutralidade na informação. Há sempre valor na escolha do que e como informar.
Como em qualquer situação, é preciso um esforço da mídia para mostrar a gravidade da crise econômica atual: perdas, causas, riscos e ameaças.
Mas também é preciso mostrar as possibilidades e oportunidades. O trabalho que se faz e o que pode ser feito para atenuar e vencer a crise.
É preciso mostrar as diferenças. Há os que perdem e também os que ganham com a crise. Há os que são mais e menos afetados.
Há decisões que estão sendo e serão tomadas que podem antecipar ou retardar soluções. E que irão alocar os custos da crise entre indivíduos, empresas e países.
Quando um comentarista, um editor, um veículo orienta sua cobertura para dar um sentido universal, absoluto e inelutável à recessão, qual é o resultado que isso produz?
Isso multiplica o medo e induz a decisões alimentadoras de mais recessão. Produz uma profecia auto-realizável, aquela que cumpre a si mesma.
Vale anotar: Quem faz assim agora são os mesmos que produziram a profecia da prosperidade e da felicidade eternas prometidas no céu do mercado.
Este é o tema do artigo 'Guerra de palavras pelo espólio da crise', que publiquei no portal do Observatório da Imprensa e que está também aqui neste site.
Também recomendo o artigo 'Atenuar os efeitos da crise', do deputado e ex-ministro Antônio Palocci, publicado no Globo de 19/10/2008.