
Há uma guerra feroz pelo espólio da crise financeira global. Sabe-se que os mercados não serão como antes e que o capitalismo não será o mesmo. Mas que mundo surgirá daqui para frente?
Não se trata de adivinhar o mundo do futuro fugidio, mas de viver o mundo de amanhã mesmo, aquele no qual acordaremos depois da próxima noite. Ele está sendo moldado agora, minuto a minuto, no calor da crise, no embate entre os que querem os mercados mais ou menos vigiados pela sociedade e, sobretudo, na definição de quem pagará a conta dos danos e quem ganhará com a recuperação da economia global.
Aqui, o nosso ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse que "se precisar, vai enfiar a faca", referindo-se a cortes nos investimentos públicos e ao adiamento de programas sociais. E não são poucos os que preconizam mais do mesmo, ou seja, do mesmo catecismo da submissão da sociedade aos mercados, o catecismo que nos guiou para a crise.
Estes são os que acusam a mão intervencionista do estado de ter provocado a crise global, exatamente por desmontar e subverter os limites e controles que existiam no sistema financeiro norte-americano e de outros países. E qual foi o resultado disso? Foi deixar a mão invisível do mercado mais à vontade para multiplicar lucros sem lastro na realidade da economia.
Estes são os mesmos que acusam agora os governos de "estatismo exacerbado" porque decidiram comprar ações dos bancos, para evitar que a ruína deles seja a ruína de todos nós.
Ora, não existe a rigor, no capitalismo, conflito entre mão do estado e mão do mercado. A maior prova disso é esta mega operação de salvação de bancos pelos governos de todo o mundo. Diz o economista Robert Shiller, renomado especialista em crises financeiras: "O envolvimento dos governos com a economia é uma questão de medida, não de absolutos".
O estado intervém sempre, mesmo quando não intervém. Deixar os mercados à vontade é uma das formas mais perversas de intervenção. Significa soltar os predadores para o banquete na sociedade. Primeiro se saciam com os mais fracos; depois partem para se devorar. Aí a bolha - ou a bomba - explode.
Muito mais que um embate de idéias, a guerra feroz pelos despojos da crise é uma guerra de interesses. É uma luta pelo controle. Quem vai controlar quem a partir de agora? Quem vai mandar mais e fazer o mundo ser de acordo com o que quer?
O que testemunhamos nos últimos anos foi a exacerbação do controle sobre os indivíduos e a sociedade e a absoluta leniência com os mercados e o capital.
Vivemos sob um sistema capaz de saber tudo sobre cada um de nós, que nos vigia o tempo todo. Pense no que acontece se você deixar de pagar a conta do cartão de crédito ou se não declarar cem reais ao imposto de renda. Ao mesmo tempo, esse sistema fingia ignorar a farra irresponsável das finanças bilionárias.
Bem, agora os governos estão tendo de pagar o maior resgate da história da Humanidade para evitar que a sociedade seja massacrada pela crise causada pela orgia financeira.
As leis e os estados são produções dos homens e de seus interesses. O que precisamos mais nesta hora é de ação política para evitar que os mesmos homens que nos levaram a esta crise mantenham o poder absoluto de antes, submetendo a sociedade aos mesmos interesses.
Esta grande e urgente missão política é irmã de outra, igualmente desafiadora e imediata: não deixar o ministro enfiar a faca no social.
Ao contrário, ministro, a crise deve nos deixar com mais vontade de investir e trabalhar para que o mundo da próxima manhã seja melhor que este. O senhor sabe que a sustentabilidade da economia brasileira hoje vem de políticas econômicas responsáveis com a moeda e com o orçamento público. Mas o outro componente disso são as políticas de investimento, emprego, valorização dos salários e transferência de renda para os mais pobres.
É preciso acreditar e apostar nisso. E pensar livre do medo e do terror do mesmo. Estão presentes hoje possibilidades poderosas de mudança, não só para vencer esta crise, mas também para construir um modo de vida que corresponda à extraordinária capacidade do homem de produzir mais com menos trabalho e menos capital. Em vez de resultar na próxima bolha, isso pode e tem de ser conduzido - pela ação política da sociedade - para a introdução de padrões distributivos funcionais para os novos meios produtivos.
É esta escolha que está em jogo na guerra de palavras e de idéias pelo espólio da crise.
É preciso ter cuidado para não cair na mesma tentação dos profetas do pensamento único, que assinaram antes da hora o atestado de óbito da diferença. Eles saudaram a convergência das idéias - não só as econômicas - em torno do paradigma absoluto do mercado. Deu no que deu.
Não cabe, então, decretar o fim do liberalismo, mesmo depois da intervenção trilionária dos governos para conter o efeito dominó dos bancos quebrados. E parecem vãs as especulações sobre o que vai acontecer com o capitalismo.
Mas 2008 vai ser lembrado como o ano em que o capitalismo mudou. Mudou mais uma vez. O capitalismo se nutre da mutação. Tem fôlego de sete gatos.
Evocando Marx, o filósofo Gilles Deleuze disse que o capitalismo é um "sistema imanente que não pára de expandir os próprios limites, reencontrando-os sempre numa escala ampliada, porque o limite é o próprio capital".
Os mais pessimistas dirão que o capitalismo mudou para pior. Esta é a finalidades deles. Teremos outra grande recessão e a miséria será maior para sempre. Os otimistas - se é que sobrou algum - e os menos pessimistas talvez vejam esta nova crise de forma menos sombria.
A Quebra de 1929 levou ao Welfare State, estado do bem-estar, que durou umas boas quatro décadas. Por que não é possível admitir agora algum controle da sociedade sobre o capital financeiro? E por que não admitir políticas globais de comunhão da imensa riqueza produzida pelos avanços da tecnologia e da ciência?
Não parece fazer sentido que uma economia que depende cada vez menos do trabalho insista em padrões primitivos de distribuição e em desperdiçar o imenso ganho de produtividade em crises sucessivas e guerras sem fim.
Afinal, o mundo real continua no mesmo lugar, produzindo suas misérias e maravilhas. Por que não botar algumas fichas em nossa capacidade de ir em direção do que fazemos e podemos fazer de melhor?
Depois do enfraquecimento do estado do bem-estar e da derrocada do comunismo soviético, o triunfalismo liberal quis enterrar a esquerda e buscou desqualificar qualquer outra crítica ou proposta alternativa. Tudo que não glorificasse o deus mercado era jurássico e insano.
Ok, o Muro ruiu de podre. O estatismo coroou a imoralidade e a incompetência. Muitas políticas para proteger os desprotegidos falham e acabam superprotegendo os já protegidos.
Mas é deplorável que esse fracasso tenha sido usado para penalizar políticas sociais e para promover a farra do crédito sem lastro. E pior, para sufocar a divergência e indultar liminarmente os que se locupletam da "exuberância irracional" e os que fecham os olhos diante da orgia financeira globalizada.
E agora? É pouco provável que a arrogância triunfalista liberal sobreviva ao choque dessa crise. E é certo que de nada vale trocar uma arrogância por outra. O fracasso do liberalismo desregrado não transforma em sucesso o fracasso do intervencionismo voluntarista.
O mundo já vai ficar melhor por conta do convencimento de que não há sistema perfeito. E sobra o dever de espernear para que o custo da socialização do mega-rombo não fique para os mais pobres. Talvez essa seja a maior e mais urgente missão política da hora.
Vale, também, estar atento à sedução do endividamento. Pelo menos aqui no Brasil, o comércio e as financeiras continuam distribuindo dinheiro fácil, a perder de vista. É bobagem querer demonizar o crédito. Mas é bom ter cuidado para não empenhar a alma.
A farra do crédito vem de longe e o primeiro aviso público da crise chegou na metade de 2006, com a disparada dos juros imobiliários nos Estados Unidos. Desde então, cada capítulo da novela parece validar outra formulação de Deleuze (para ficarmos no mesmo filósofo). Ele observou que o homem endividado é o sujeito dessa versão contemporânea do capitalismo, que depende cada vez menos da coerção explícita para exercer o controle social. No lugar do medo do inferno ou da prisão basta agora a alegria do cartão de crédito.