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    <title>Blog Altamir Tojal</title>
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    <subtitle>Blog do Altamir Tojal. Parte do site www.estemundopossivel.com.br. Mas pode se vendido separadamente.</subtitle>
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    <title>Marieta conta novidades do passado</title>
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    <published>2010-01-17T19:59:26Z</published>
    <updated>2010-01-18T11:01:11Z</updated>

    <summary>Mamãe no Bar Lagoa Mamãe estava ótima hoje no almoço no Bar Lagoa. Tem estado ótima nas últimas vezes. Disse, depois do primeiro chope, que andava deprimida, mas foi só beber aquele e já estava bem. Contou novidades do passado....</summary>
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        <![CDATA[<strong><big>Mamãe no Bar Lagoa</big></strong>

Mamãe estava ótima hoje no almoço no Bar Lagoa. Tem estado ótima nas últimas vezes. Disse, depois do primeiro chope, que andava deprimida, mas foi só beber aquele e já estava bem. Contou novidades do passado. As histórias se repetem mais quando a gente envelhece. Hoje ela contou algumas das velhas, mas veio coisa nova. Um passado novo, fresco. Em casa, depois do almoço, Val disse que estava pensando nas tardes de domingo com a família, em Bonsucesso, quando era criança. Os pais iam dormir. Ela lembrou de um trecho que tinha lido no jornal de ontem: "tudo fica lá atrás, nublado como um conto de fadas" (Bete Orsini, perfil de Julio Rego, no Ela). Surgem às vezes, nessas nuvens do passado, imagens cristalinas, como a água da cacimba da casa em Maceió. Talvez provocada pelo sabor do chope, mamãe lembrou da água dessa cacimba, a mais saborosa que ela bebeu. "Água que se bebe com gosto". A cacimba ficava no quintal da casa em que foi morar com Pedro. Um quintal comum a umas seis casas. O trem passava bem na frente. A jovem e bela Marieta acordava com o apito do primeiro trem, às dez da manhã. "Era água de uma vertente, limpíssima". Imagine o sabor dessa água. Mamãe também contou uma história de 1938, quando anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar. A menina Marieta vivia e trabalhava com um tio, o Tio João, em Atalaia, "um lugar onde nada acontecia". Era da parte mais pobre da família e trabalhava de graça na loja do tio. A coisa mais divertida era jogar víspora. A sogra do Tio João, a Babu, "uma mulher muito bonita, um mulherão", dava quinhentos réis de vez em quando para Marieta ir jogar. Se perdesse, estava perdido; se ganhasse dava tudo pra Babu, que não queria o dinheiro, mas Marieta não podia ficar com nada. Não tinha salário, como ia justificar ter dinheiro? Babu podia ser avó de Marieta, mas eram amigas e confidentes. Babu ajudava a amiga como podia, se preocupava com ela. Gostava de jogar, perdia o dinheiro que o filho mandava da Bahia e ainda fazia dívidas. O filho cortou a verba, mas Babu tinha uma chave do cofre do Tio João e às vezes pegava algum "emprestado". Na noite em que o mundo ia se acabar, Babu encheu uma tigela de leite e pão e se empanturrou. Não ia morrer de barriga vazia.]]>
        
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    <title>Comece mais cedo o Carnaval Carioca</title>
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    <published>2010-01-08T14:32:38Z</published>
    <updated>2010-01-08T15:17:15Z</updated>

    <summary>Quando o espetáculo começa, a gende se sente dentro do Carnaval Carioca e vai imaginando os prés, os blocos, as fantasias, a cerveja gelada e tudo mais. Grande e boa ideia essa de reestrear o musical Sassaricando na temporada pré-carnavalesca....</summary>
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        Quando o espetáculo começa, a gende se sente dentro do Carnaval Carioca e vai imaginando os prés, os blocos, as fantasias, a cerveja gelada e tudo mais. Grande e boa ideia essa de reestrear o musical Sassaricando na temporada pré-carnavalesca.

Lançado em 2007, Sassaricando volta com o mesmo alto astral, a mesma alegria, a ótima seleção de músicas, belas interpretações e ainda mais teatral e engraçado. Está agora no Teatro Carlos Gomes, a preços populares.

O musical é uma crônica da vida da &quot;cidade maravilhosa&quot; nas últimas décadas, contada com a interpretação bem humorada e brejeira de uma seleção de dezenas de marchinhas de carnaval, feita pelos criadores do espetáculo, Rosa Maria Araujo e Sérgio Cabral.

É um desfile de músicas gostosas e maliciosas de autoria de um super time de compositores, como Noel Rosa, Ari Barroso, Lamartine Babo, Haroldo Barbosa e João de Barro, o &quot;Braguinha&quot;.

O elenco de cantores é formado por Eduardo Dussek, Inez Viana, Pedro Paulo Malta, Pedro Miranda, Alfredo Del-Penho e Juliana Diniz, acompanhados por uma banda de sete núsicos, também é um timaço.

        
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    <title>Sol forte no céu e crepúsculo no fundo do mar</title>
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    <published>2010-01-01T18:51:51Z</published>
    <updated>2010-01-02T11:59:03Z</updated>

    <summary>Estávamos entre o fundo e um teto opaco, um caldo de microalgas. Era quase um mergulho noturno. Somente um pouco da luz do sol atravessava o caldo, criando um ambiente crepuscular debaixo d&apos;água. Água ruim não significa mergulho ruim. O...</summary>
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        <![CDATA[<span class="mt-enclosure mt-enclosure-image"><a href="http://www.estemundopossivel.com.br/blog/Mar%20do%20Mundo%20logo%202.jpg"><img alt="Mar do Mundo logo 2.jpg" src="http://www.estemundopossivel.com.br/blog/Mar do Mundo logo 2-thumb-64x61.jpg" width="64" height="61" class="mt-image-left" style="float: left; margin: 0 20px 20px 0;"/></a></span><big><strong><div style="text-align: center;"><big></big>Estávamos entre o fundo e um teto opaco, um caldo de microalgas. Era quase um mergulho noturno. Somente um pouco da luz do sol atravessava o caldo, criando um ambiente crepuscular debaixo d'água.</div></strong></big>

Água ruim não significa mergulho ruim. O mar da Cidade Maravilhosa estava muito feio no domingo depois do Natal (2009). Parecia uma mistura de caldo de cana com chocolate derretido. Isso na superfície. No fundo estava claro. Fizemos mergulhos diferentes, estranhos mesmo, mas isso é que deu graça à coisa.

Foi a primeira saída oficial da Mar do Mundo, a operadora de mergulho do Pedro Bonfatti, instrutor e amigo. Partimos da Marina da Glória, no Guaiuba. Domingo de sol e muito calor. Sabíamos que o mar não estava bom por conta das microalgas que enfeavam as praias há alguns dias. Mas tínhamos esperança que melhorasse mais adiante. Estava e continuou péssimo, na verdade. A ideia era irmos para Maricás e descer no naufrágio do Moreno. Mas fomos mesmo para o Portinho, na Rasa, que fica mais perto. 

Metade do grupo não desceu no primeiro mergulho. Alguns estavam concluindo o curso básico e o Pedro achou melhor abortar. Outros não acharam agradável cair naquela água.

Descemos uns dez ou doze, guiados pelo suíço-carioca Thomas. Os primeiros oito a dez metros eram de invisibilidade. Mas depois a água estava clara. Não sei calcular bem, mas creio que tínhamos uns quinze metros ou mais de visibilidade, o que não é mau no Rio de Janeiro. Eu estava na frente e podia ver todo o grupo quando me voltava. Havia vida razoável. A água estava morna na parte escura, acima, mas muito fria embaixo. O meu computador marcou 17 graus. Mas com o calor lá em cima, foi até refrescante. Acho que a água fria ajudou a desanimar a turma para o segundo mergulho. Então, descemos apenas o Fabiano e eu.
 
O que me agradou mais nestes mergulhos foi exatamente aquela condição estranha. Estávamos entre o fundo e um teto opaco, um caldo de microalgas. Era quase um mergulho noturno. Somente um pouco da luz do sol atravessava o caldo, criando um ambiente crepuscular debaixo d'água. Eu já tinha feito mergulhos parecidos lá mesmo na Rasa, porque a visibilidade no mar do Rio é fraca com freqüência. Mas esses foram mais bonitos e emocionantes.









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    <title>A CORRUPÇÃO COMO ESPETÁCULO</title>
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    <published>2009-12-03T14:29:55Z</published>
    <updated>2009-12-03T14:41:57Z</updated>

    <summary>Para não validar a irrelevância do jornalismo e não capitular, a imprensa brasileira tem o desafio de superar a lógica do espetáculo na cobertura da corrupção Não dá mais para tolerar a impunidade. O grito dos estudantes em Brasília, &quot;Arruda...</summary>
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        <![CDATA[<strong><big><div style="text-align: center;"><strong>Para não validar a irrelevância do jornalismo e não capitular, a imprensa brasileira tem o desafio de superar a lógica do espetáculo na cobertura da corrupção</strong></div></big></strong>

Não dá mais para tolerar a impunidade. O grito dos estudantes em Brasília, "Arruda na Papuda, PO no xilindró", ressoa o sentimento geral de que ficou insuportável a convivência com o deboche dos corruptos e com a lição repetida de que o crime compensa.

Estamos no apogeu da repercussão desse novo caso de corrupção política, que se revela antiga e metastática no Distrito Federal e que repete outros escândalos recentes.

Todos sabem quem é o Arruda do slogan, o governador José Roberto Arruda, maior expoente do DEM no país. Não é a plantinha medicinal. E, graças à exposição na mídia, mesmo os mais desinformados aprenderam que PO é o vice Paulo Octavio e que Papuda é o presídio de Brasília.

Com a corrupção tão incrustada e espalhada nos três poderes, em todas as esferas de governo, a imprensa faz a sua parte, mas não dá, nem pode dar, cabo da impunidade.

A imprensa noticia, esfrega a corrupção na nossa cara, mas os criminosos continuam soltos. E mandando.

Sem punição, a corrupção é banalizada e se naturaliza. É mais um espetáculo do dia-a-dia, reality show, novela televisiva. As temporadas se sucedem. Alguns personagens saem do ar por uns dias e voltam. Outros nem isso. Seguem assíduos no estrelato do poder.

A execração pública não basta, não é castigo para essa gente, que se vale disso para apregoar a irrelevância do jornalismo. "Quem elege o governante não é quem lê jornal, é quem limpa a bunda com ele", diz em uma de suas gravações Durval Barbosa, operador, conselheiro e algoz do governador do Distrito Federal.

Ou como disse há pouco o deputado Sérgio Moraes, questionado por jornalistas sobre o seu parecer contrário à cassação de outro deputado, Edmar Moreira, o do Castelo de São João Nepomuceno: "Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege".

E assim se reproduz a nossa política, independentemente de matiz. É o eterno retorno do mesmo.

É patética a hesitação do DEM em expulsar do partido o governador Arruda e vergonhosa a omissão com relação ao vice PO e aos demais quadros envolvidos no novo mensalão. E o que dizer do comentário do presidente Lula de que "a imagem não fala por si"?

Ah, sim! Tem de haver defesa dos acusados e julgamento. Mas a nossa justiça...

Há duas semanas o desembargador-corregedor do Rio teve de se afastar do cargo sob suspeita de vender proteção a políticos "ficha-suja". Claro que foi graças a uma série de reportagens. Os mensaleiros do PT e do PSDB estão sendo julgados, mas gozando da impunidade a perder de vista, garantida por artimanhas jurídicas e pela morosidade dos processos.

Desta vez, porém, parece que a abundância de imagens e falas documentadas do escândalo da hora, veiculadas repetidamente, reforçam o clamor por punição de verdade e já, a começar pelo imediato ostracismo partidário, perda de mandatos e mesmo detenções preventivas.

A imprensa não pode ocupar o lugar da justiça, nem do parlamento, nem dos partidos, mas tem de avançar no seu papel, no que lhe cabe. É a instituição que mais combate e expõe os crimes do poder. Não é por acaso que alguns governos do nosso continente e mesmo o nosso a têm como alvo.

Querem controlar os jornalistas e a mídia e, claro, continuar praticando sua política viciosa.

Para não dar razão aos profetas da irrelevância do jornalismo e não capitular aos que sempre querem subjugá-la, a imprensa brasileira tem o desafio de superar a lógica do espetáculo na cobertura da corrupção, de sustentar essa pauta mesmo que a audiência pareça cansada, de não deixar esquecer nenhum nome, nem deixar de cobrar o julgamento e o justo castigo a cada bandido do poder.
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    <title>RISOS E GEMIDOS NO DNA NACIONAL</title>
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    <published>2009-07-27T01:29:30Z</published>
    <updated>2009-07-28T00:26:40Z</updated>

    <summary>A peça O Língua-Solta trata das nossas origens, do começo do Brasil, trazendo um dos personagens mais remotos da nossa cultura, Bento Teixeira, considerado o primeiro poeta brasileiro, embora tenha nascido e morrido em Portugal. De autoria de Miriam Halfim...</summary>
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        <![CDATA[A peça <strong>O Língua-Solta</strong> trata das nossas origens, do começo do Brasil, trazendo um dos personagens mais remotos da nossa cultura, Bento Teixeira, considerado o primeiro poeta brasileiro, embora tenha nascido e morrido em Portugal.

De autoria de Miriam Halfim e direção de Xando Graça, a peça tem interpretação solo de Isaac Bernat. Estreou no dia 21 de julho e fica em cartaz até 10 de setembro, nas quartas e quintas, às 19 horas, no Teatro do Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia, Rio.

Bento Teixeira veio com seis anos para cá. Cristão-novo, órfão, foi educado pelos jesuítas em Pernambuco. Além das influências judáicas e católicas, o poeta completou sua visão de mundo com as delícias e aflições da esbórnia colonial. Foi denunciado ao Santo Ofício e condenado em Lisboa.

Pouco mais se sabe de Bento Teixeira, autor do épico 'Prosopopéia'. A obra pode ser achada nos sebos. Há quatro exemplares (edições de 1972 e de 1977) disponíveis na Estante Virtual e o texto pode ser baixado na <a href="http://www.bibvirt.futuro.usp.br/content/view/full/1586">Bibvirt</a>. Os especialistas dizem que o poema tem mais valor histórico que literário.

Na versão de Miriam Halfim, a vida trágica de Bento Teixeira é temperada com humor peneirado na libertinagem geral e na irreverência do poeta. Ela acha e nos traz aqueles risos, gravados talvez na parte mais alegre e escrachada do DNA nacional, mas que não abafam os gemidos das nossas dores e as queixas da nossa impotência.

O propósito da autora parece ser mesmo o de nos aproximar daquela época, através de seus protagonistas, muitos dos quais quase totalmente desconhecidos do público. Esta é a sua quinta peça encenada e, de seus mais de trinta textos para o teatro, dez foram contemplados em concursos de dramaturgia.

Entre estes, destacam-se 'Ana de Ferro, Rainha dos Tanoeiros do Recife', 'Senhora de Engenho - Entre a Cruz e a Torá' (sobre a vida de Branca Dias), e 'Ecos da Inquisição' (mistura de histórias do padre Antônio Vieira e de Antônio José da Silva, o Judeu).

O livro com a íntegra da peça foi publicado pela Editora Réptil.

<span class="mt-enclosure mt-enclosure-image"><img alt="convite lingua solta.jpg" src="http://www.estemundopossivel.com.br/blog/convite%20lingua%20solta.jpg" width="600" height="394" class="mt-image-center" style="text-align: center; display: block; margin: 0 auto 20px;"/></span>
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    <title>VIRADA RUSSA, A ARTE NA HORA DA REVOLUÇÃO</title>
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    <published>2009-06-17T04:34:49Z</published>
    <updated>2009-06-18T22:08:22Z</updated>

    <summary>Além de prazer estético, a exposição Virada Russa nos dá a oportunidade de atualizar o conceito de revolução. São 123 obras de artistas como Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, entre outros, em exibição no CCBB do Rio, de 23...</summary>
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        <![CDATA[<strong><big>Além de prazer estético, a exposição <em>Virada Russa</em> nos dá a oportunidade de atualizar o conceito de revolução.</big></strong>

São 123 obras de artistas como Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, entre outros, em exibição no CCBB do Rio, de 23 de junho a 23 de agosto. A expo esteve em Brasília e vai também para São Paulo.

Esses artistas mudaram a arte no instante em que a Revolução Russa ainda era revolução.

Como explica o professor Pedro Duarte de Andrade no inspirado artigo <em>Política e Arte na Rússia da Revolução</em> (Prosa e Verso, O Globo, 20/10/2007), após a Revolução de 1917, a Rússia assistiu ao casamento feliz entre política e arte. Mas logo veio o divórcio. <span class="mt-enclosure mt-enclosure-file"><a href="http://www.estemundopossivel.com.br/blog/Artigo%20Arte%20na%20R%C3%BAssia%20da%20Revolu%C3%A7%C3%A3o.pdf">Artigo Arte na Rússia da Revolução.pdf</a></span>

A vitalidade artística sucumbiu pouco tempo depois do breve lampejo da revolução, do acontecimento revolucionário. Mas ficaram as obras - a arte - e toda a sua força. 

Quando os criadores destas obras passaram a ser perseguidos, presos e assassinados já não havia revolução. Havia burocracia e totalitalitarismo. E surgia o simulacro do realismo socialista.

A exposição, portanto, traz para hoje o instante revolucionário. É uma oportunidade de respirar esse ar.

Nas suas tantas críticas perturbadoras e profecias inquietantes, o Zaratustra de Nietzsche talvez tenha compreendido também o destino trágico das revoluções de trazerem o novo e também a sua negação:

<strong><em>"O que quer que eu crie e de que modo quer que o ame - breve terei de ser seu adversário, bem como o do meu amor: assim quer a minha vontade".</em></strong>

E Deleuze acrescentou bem mais tarde:

<em><strong>"Dizem que as revoluções têm um mau futuro. Mas não param de misturar duas coisas, o futuro das revoluções na história e o devir revolucionário das pessoas. Nem sequer são as mesmas pessoas nos dois casos".  </strong></em>

Entendida, portanto, dessa forma, a idéia de revolução ultrapassa e atropela o sentido de tarefa. Não dá para dizer: "Pronto! Fizemos a revolução. Dever cumprido!". Revolução feita, é hora de fazer outra.

Mais, além e, mesmo, contra a tarefa feita, revolução é devir.

<em><small>PS: <strong>REVOLUÇÃO</strong> - Embora ecoe nostálgica e debilitada, a palavra 'revolução' recupera, de tempos em tempos, parte de sua reputação de perigo e volta a impor certo respeito, mesmo depois de longos períodos de apropriação pela ideologia e pelo marketing, despojada de seu sentido estrito, de destruição e substituição de um regime político. Revoluções propriamente ditas, como define Abbagnano no Dicionário de Filosofia (ABBAGNANO, 2000: 858-859), foram a inglesa, a americana, a francesa e a russa. Ainda se fala - e muito - em revolução no sentido largo, quando se quer atribuir importância a uma mudança, seja na política, na economia, na arte, na ciência ou no futebol. Mas há também quem queira evitar a palavra ou mesmo bani-la, como ocorreu em 2004, na comemoração dos 30 anos da 'Revolução dos Cravos' em Portugal. O slogan do governo para celebrar a data, 'Abril é Evolução' provocou protestos da oposição socialista. Em todo o país, nos dias que antecederam o 25 de Abril, mãos anônimas acrescentaram o 'R' à palavra 'Evolução' nas peças da propaganda oficial. Mesmo não se tratando de uma revolução no sentido estrito, a elipse do 'R' não ocorreu, seguramente, por rigor técnico nem por respeito ao sentido político da palavra. É possível que mentes perspicazes e intuitivas, de dentro do próprio sistema dominante, tenham percebido algum revigoramento no sentido da palavra.</small></em>

<span class="mt-enclosure mt-enclosure-image"><a href="http://www.estemundopossivel.com.br/blog/O%20Marujo%20-%20Vladimir%20Tatlin.jpg"><img alt="O Marujo - Vladimir Tatlin.jpg" src="http://www.estemundopossivel.com.br/blog/O Marujo - Vladimir Tatlin-thumb-538x540.jpg" width="538" height="540" class="mt-image-center" style="text-align: center; display: block; margin: 0 auto 20px;"/></a></span>

<div style="text-align: right;"><small>O Marujo - Vladimir Tatlin</small></div>

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    <title>JULIA E O MAGO</title>
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    <published>2009-06-12T19:56:48Z</published>
    <updated>2009-06-12T20:46:01Z</updated>

    <summary> Está nas livrarias o belo e arrepiante romance Julia e o Mago, de Cecília Costa. O lançamento será no dia 17/6, quarta, às 19 horas, na Livraria Argumento, Leblon. Cecília me alegrou com o convite para escrever a orelha...</summary>
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        <![CDATA[

<strong><big>Está nas livrarias o belo e arrepiante romance <a href="http://74.125.47.132/search?q=cache:_PEGMiEQTDMJ:www.record.com.br/livro_sinopse.asp%3Fid_livro%3D24036+julia+e+o+mago&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br"><em>Julia e o Mago</em></a>, de Cecília Costa. O lançamento será no dia 17/6, quarta, às 19 horas, na Livraria Argumento, Leblon.</big></strong>

Cecília me alegrou com o convite para escrever a orelha do livro. Segue o texto:

<span class="mt-enclosure mt-enclosure-image"><img alt="Julia e o Mago capa.jpg" src="http://www.estemundopossivel.com.br/blog/Julia%20e%20o%20Mago%20capa.jpg" width="144" height="220" class="mt-image-right" style="float: right; margin: 0 0 20px 20px;"/></span>

Depois de lutar com a morte, de ver a alma voltar para o próprio corpo, Antônio se entrega à aventura de perseguir o amor em todos os instantes da vida e em todas as suas inesgotáveis possibilidades, as mais sublimes e as mais sórdidas. É assim que Julia decifra o mago, seu pai, e vive a aventura de também se desvelar. Ela inventa coragem para minerar os esconderijos da memória e confronta seus encontros e achados com narrativas e percepções do presente. Tudo é movediço e perturbador.

As histórias de <em>Julia e o Mago</em> nos trazem lembranças das alegrias e terrores mais primitivos e não nos deixam fugir do espelho. Evocam os obscuros e renitentes poderes da casa rodrigueana e nos põem a conviver com a opressão, as infidelidades, as conspirações, os pecados e, sobretudo, os amores de toda boa e velha família que se preza.

Este é um livro sobre os limites do amor. Ele nos conduz, em meio a trevas eternas e ao branco vazio, a luzes que cegam. Não vemos os limites do amor porque o desejo é infinito e, portanto, impossível de satisfazer. Antônio se consagra na épica dessa dependência desejante, do desejo que nunca se satisfaz, que é falta e é fora. Ao ressuscitar, o pai de Julia enfrenta a revelação de que não poderá mais fugir do <em>amor fati</em>, do destino de amar a vida incondicionalmente, mesmo o que ela tem de mais estranho e terrível, mesmo a infinitude do desejo.

Cecília Costa, que já havia se desnudado no seu <em>Damas de Copas</em>, explora agora, com <em>Julia e o Mago</em>, limites ainda mais críticos da autoficção. Não faz cerimônia nem tem pudor. Ela alcança, assim, a emoção e a verdade engendradas na tensão entre ficção e realidade, ou seja, o que a literatura tem de melhor a oferecer. Essa potência irrompe tanto nas histórias e personagens como na diversidade e na ousadia da maneira de contar, nas múltiplas vozes e na poesia das palavras, transformando em arte mesmo o mais rude cotidiano.

O livro de Cecília ainda nos presenteia com ricas e interativas alusões à família Mann, desde as matas mágicas de Angra dos Reis e Parati, de onde partiu Julia, a brasileira, mãe de Thomas, autor preferido de Antônio, até as montanhas geladas - e também mágicas - da Suíça.     
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    <title>CASO BATTISTI, ENTREVISTA DE TONI NEGRI</title>
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    <published>2009-03-02T10:47:50Z</published>
    <updated>2009-03-02T10:53:25Z</updated>

    <summary>O limite da prisão preventiva era de 12 anos na Itália dos anos 70. Havia tortura e processos sumários inteiramente construídos sob a palavra de presos aos quais era prometida a liberdade em troca de confissões. Houve 36 mil detenções,...</summary>
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        <![CDATA[<strong>O limite da prisão preventiva era de 12 anos na Itália dos anos 70. Havia tortura e processos sumários inteiramente construídos sob a palavra de presos aos quais era prometida a liberdade em troca de confissões. Houve 36 mil detenções, seis mil pessoas foram condenadas e milhares se refugiaram. Seguem trechos da entrevista de Negri ao jornalista Thiago Scarelli, do UOL Notícias, em 15 de fevereiro de 2009. </strong>

Antonio Negri, 75, é professor da Universidade de Pádua (Itália) e do Colégio Internacional de Paris (França). Entre os anos 50 e 70, participou dos movimentos de esquerda na Itália, condenando tanto a direita quanto o stalinismo. Esteve preso entre 1979 e 1983, depois se exilou na França por 14 anos. Condenado por subversão, o filósofo voltou para a Itália em 1997 e cumpriu pena até 2003. Atualmente, divide seu tempo entre Veneza e Paris, cidades onde desenvolve atividades acadêmicas. Publicou uma vasta obra de filosofia política. É co-autor, com Michael Hardt, dos livros "Império" e "Multidão".

<em>UOL - Como o senhor vê a posição da Itália no caso Battisti?</em>

Antonio Negri - A posição italiana é uma posição muito complexa. Como se sabe, o governo italiano é um governo de direita e é um governo que, depois de 30 anos, retomou a perseguição das pessoas que se refugiaram no exterior depois do final dos anos 70, depois do final dos anos nos quais na Itália houve um forte movimento de transformação, de rebelião. E, portanto, o governo italiano retoma hoje uma campanha pela recuperação destas pessoas. Em particular, tentou fazê-lo com a França, para conseguir a extradição de Marina Petrella [condenada por subversão pela justiça italiana] e não conseguiu porque o governo francês, a presidência francesa [Nicolas Sarkozy], impediu. Neste ponto, aparece em um momento exemplar o caso Battisti.

<em>UOL - O que significa esse "exemplo"? A punição de Battisti resolveria a questão da violência na Itália nos anos 70?</em>

Negri - Precisamente. Resolveria em dois sentidos: por um lado, se recupera aquilo que eles chamam 'um assassino'; e por outro se esquece aquele que foi um Estado de Exceção, que permitiu a detenção e a prisão preventiva de milhares de pessoas durante estes anos. É necessário recordar que nos anos 70 o limite jurídico da prisão preventiva era fixado em 12 anos. É necessário recordar o uso da tortura e de processos sumários inteiramente construídos sob a palavra de presos aos quais era prometida a liberdade em troca de confissões. Este foi o clima dos anos 70. E não nos esqueçamos que nos anos 70 houve 36 mil detenções, seis mil pessoas foram condenadas e milhares se refugiaram no exterior. E se há quem duvide desses números, e que quer continuar duvidando, basta que deem uma olhada nos relatórios da Anistia Internacional naqueles anos. Portanto, essa é uma questão muito séria. O caso Battisti é, na verdade, um pobre exemplo de uma estrutura, de um sistema no qual a perseguição, insisto na palavra 'perseguição', era acompanhada por enormes escândalos na estrutura política e militar italiana. Houve uma construção, principalmente por meio de uma loja maçônica chamada P2, de uma série de atentados dos quais ainda hoje ninguém sabe quem foram os autores, atentados que deixaram milhares de mortos, por parte da direita. E o governo italiano nunca pediu, por exemplo, que o único condenado por estes atentados seja extraditado do Japão, onde se refugiou. Existe uma desigualdade nas relações que o governo italiano mantém com todos os outros condenados e refugiados de direitas que é maluca. O governo italiano é um governo quase fascista. 

<em> UOL - Como o senhor vê hoje o PAC [Proletários Armados pelo Comunismo, grupo do qual Battisti fazia parte]?</em>

Negri - O PAC era um grupo muito marginal, mas isso não significa que não estivesse dentro do grande movimento pela autonomia. Mas ouça, o problema é esse: eu acho que as coisas das quais foi acusado Battisti são coisas muito graves, mas - e isso me parece importante dizer - estas são responsabilidades compartilhadas por toda a esquerda verdadeira. Não se trata de um caso específico. O Supremo Tribunal Federal do Brasil construiu uma jurisprudência pela qual foram acolhidos outros italianos nas mesmas condições que Battisti.

<em>UOL - E como a Itália deve solucionar esta dívida com o passado?</em>

Negri - Isso deveria ser feito por uma anistia, mas o governo italiano nunca quis caminhar por este terreno. Talvez tudo isso tenha determinado tremendas conseqüências no sistema político italiano, porque foi retirada da história da Itália uma geração ou duas, que poderiam ter conseguido determinar uma retomada política. É uma situação muito dramática. E gostaria de acrescentar uma coisa: o a postura da Itália no confronto com o Brasil a respeito deste tema é uma postura muito insultante. 

<em>UOL - Por quê?</em>

Negri - Trata-se de uma pressão feita sobre o Brasil, enquanto um país fraco, depois que os franceses não extraditaram à Itália Marina Petrella. Psicologicamente, trata-se de uma operação política e midiática muito pesada contra o Brasil, na tentativa de restituir a dignidade da Itália, no âmbito da busca de restituir os exilados.

<em>UOL - O senhor também esteve preso?</em>

Negri - Eu fui detido em 1979 e fiquei na cadeia até 1983, em prisão preventiva, sem processo. Em 1983, houve um eleição parlamentar e eu saí da cadeia porque fui eleito deputado, porque não era ainda condenado. Fiquei preso quatro anos e meio - e poderia ter ficado até 12. Ou seja, quando os italianos dizem que nos anos 70 foi mantido o Estado de Direito, eles mentem. E isso eu digo com absoluta precisão, com base no meu próprio exemplo: fiquei quatro anos e meio em uma prisão de alta segurança, prisão especial, fui massacrado e torturado. Pude deixar a prisão apenas porque fui eleito deputado - do contrário, eu poderia ter ficado na prisão por 12 anos, sem processo. Durante os anos que fiquei na França, exilado, eu fui processado e condenado a 17 anos de prisão, mas que foram reduzidos porque havia uma pressão pública forte em meu favor. Quando voltei para a Itália, fiquei outros seis anos presos e encerrei a questão.

<em>UOL - Quais eram as acusações?</em>

Negri - Associação criminosa, gerenciamento de manifestações que eram violentas nos anos 70, em Milão, em Roma, em toda Itália. Mas a primeira acusação que sofri não era de agitador político, por escrever jornais etc., mas de chefiar as Brigadas Vermelhas, o que não é verdadeiro, e de ter assassinado [Aldo] Moro, acusações das quais fui absolvido depois. Entende? Na Itália se busca desesperadamente fazer valer uma mitologia dos anos 70, que é falsa. E a direita no poder hoje busca a qualquer custo restaurar um clima de falsidade e de intimidação para não permitir que a história seja contada como foi.
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    <title>DITADURA NO BRASIL, O PERIGO DO ESQUECIMENTO</title>
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    <published>2009-02-26T12:42:21Z</published>
    <updated>2009-02-26T13:02:20Z</updated>

    <summary>A chegada da esquerda ao poder tornou mais difícil lembrar e denunciar a ditadura no Brasil. Há quem pense que não há mais perigo de ditadura aqui. O esquecimento, porém, é o primeiro requisito para reviver os piores pesadelos políticos....</summary>
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        <![CDATA[<strong>A chegada da esquerda ao poder tornou mais difícil lembrar e denunciar a ditadura no Brasil. Há quem pense que não há mais perigo de ditadura aqui. O esquecimento, porém, é o primeiro requisito para reviver os piores pesadelos políticos. </strong>

Como observou o jornalista Luiz Antonio Magalhães no artigo <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=526JDB001">"Direita, volver", </a>o jornal Folha de S. Paulo pode ter prestado, por via torta, um bom serviço à democracia ao derrapar num editorial, chamando a ditadura militar brasileira de 'ditabranda'. O bom serviço foi contribuir para que a ditadura seja relembrada. Magalhães edita o blog Entrelinhas - Mídia e Política. O artigo foi publicado no <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/">Observatório da Imprensa</a>.

A idéia de 'ditabranda' é mais generalizada do que se pensa. Tenho ouvido isso de pessoas jovens e até de outras que eram crescidas na época, mas que devem ter esquecido ou nem tomaram conhecimento do que foi a ditadura no Brasil.

Também confundem e misturam resistência à ditadura militar com projetos de ditadura de esquerda. Quem se lembra e quem estuda o tema deve saber da diversidade que havia na resistência.

O pior é que ex-militantes que hoje se locupletam no poder e promovem a corrupção não só deterioram o nosso presente como desmoralizam o passado. Por incrível que pareça, a chegada da esquerda ao poder tornou mais difícil lembrar e denunciar a ditadura no Brasil.

Tem gente que pensa que não há mais perigo de ditadura no Brasil. A nossa democracia avança, mas a ameaça totalitária nunca deixa de existir. E o esquecimento é o primeiro requisito para reviver os piores pesadelos políticos. 
 
A respeito do tema, vale acompanhar o debate no Observatório da Imprensa. Há também uma <a href="http://www.ipetitions.com/petition/solidariedadeabenevidesecomparat/index.html">petição</a> na rede.
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    <title>MOVIMENTOS SOCIAIS E GOVERNOS</title>
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    <published>2008-12-23T02:20:42Z</published>
    <updated>2008-12-23T10:46:24Z</updated>

    <summary>O aparelhamento político debilita os movimentos sociais e empobrece o repertório conceitual da esquerda? Como inventar novas formas de gerir o comum que não sejam capturadas pelo capital? Como evitar que a atual crise neoliberal traga de volta o estatismo?...</summary>
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        <![CDATA[<strong><big><big>O aparelhamento político debilita os movimentos sociais e empobrece o repertório conceitual da esquerda?</big></big></strong>

<strong><big><big>Como inventar novas formas de gerir o comum que não sejam capturadas pelo capital?</big></big></strong>

<strong><big><big>Como evitar que a atual crise neoliberal traga de volta o estatismo?</big></big></strong>

<strong><big><big>Como ter uma prática e uma agenda que transmitam as virtudes dos movimentos sociais e do estado?</big></big></strong>

<strong>A Oficina de 18 de Dezembro</strong>

A relação entre os movimentos sociais e o estado foi uma das questões centrais na Oficina de Debates promovida pela Universidade Nômade no dia 18 de dezembro, no Departamento de Direito da PUC Rio.

Foi um debate horizontal que teve a participação de Antonio Negri, Christian Marazzi, Yann Moulier-Boutang, Oscar Vega, Raul Prada, Cesar Altamira e outros pensadores e professores presentes no Rio de Janeiro para o Fórum Livre do Direito Autoral, realizado de 15 a 17 de dezembro por iniciativa da Escola de Comunicação da UFRJ.

O debate foi coordenado por Giuseppe Cocco, da Universidade Nômade e da UFRJ, e por Francisco Guimaraens, também da Universidade Nômade e da PUC Rio. Participaram cerca de 80 pessoas, durante todo o dia. A pauta original constou de quatro itens:

1) O ciclo político "virtuoso" na América Latina: potencialidades e impasses.
2) A crise "global" do capitalismo global das redes.
3) Movimentos e produção de subjetividade.
4) A procura do "commonwealth'.

<strong>Críticas à Carta dos Movimentos</strong>

Embora todo o temário original tenha sido abordado nas discussões, com destaque para a questão da financeirização na economia contemporânea - a partir de abordagens propostas por <a href="http://www.ssrc.org/blogs/knowledgerules/author/cmarazzi/">Christian Marazzi</a> - o debate sobre a relação entre movimentos sociais e o estado foi o que teve mais intervenções e mobilizou o maior número de participantes.

Um dos textos de referência do evento foi a <a href="http://www.rbrasil.org.br/conteudo/noticias-do-site/movimentos-sociais-entregam-carta-ao-governo-lula">Carta dos Movimentos Sociais ao Presidente Lula</a>, apresentada ao governo em novembro. A carta, subscrita por mais de 50 organizações, apresenta propostas ao governo para enfrentar a crise econômica global.

A carta recebeu diversas críticas entre as quais a de que não expressa a multiplicidade dos movimentos. Outro ponto assinalado seria um viés neokeynesiano, que revelaria certa nostalgia da política econômica do governo militar. Também foi questionada a ausência de referências a ações afirmativas, o que seria reflexo de que diversos movimentos estariam se convertendo em aparelhos políticos. Os movimentos estariam se tornando presas fáceis do estado e não estariam consegindo se comunicar e cooperar entre si.

Paulo Henrique Almeida, da UFBA, disse que a tradição da esquerda de ser contra o comércio e os bancos a desarma para o mundo atual, que é baseado em trocas e finanças. Ele assinalou que a carta propõe a eutanásia dos rentistas e do capital financeiro como se nós não fôssemos parte das finanças. Também pede de volta a 'substituição de importações' e outras propostas do repertório da esquerda nacionalista e da direita fascista. Portanto, cabe questionar o que seria uma política de esquerda nesta crise.

<strong>Não se governa sem os movimentos</strong>

Antonio Negri concluiu uma de suas duas breves intervenções lembrando que hoje não se governa, a não ser como os movimentos. 

Os debates destacaram o reconhecimento dos avanços sociais das políticas públicas no Brasil, nos últimos anos, resultantes em grande parte da relação entre os movimentos sociais e os governos.

Mas assinalou-se que esse encontro também diminui os movimentos e o próprio estado, e que caberia rediscutir o que é movimento social hoje.

Isso suscitou controvérsia. De um lado, considera-se que não cabe aos intelectuais definir o que é movimento e como devem atuar os movimentos. Isso seria uma tentativa de captura.

Outra corrente entende que professores e intelectuais em geral fazem parte do 'proletariado cognitivo'. A hierarquização e a fragmentação promovidas pelo capitalismo cognitivo passa pelo domínio do tempo desses trabalhadores que, portanto, necessitam e devem discutir o tema, partindo de suas próprias questões.

Giuseppe Cocco concordou que há problemas na relação entre os movimentos e o estado, mas destacou que há uma prática rica e potencialidades positivas. A dificuldade da relação estaria na questão maior da crise da representação. Além disso, o debate da questão deveria considerar o vazio provocado pelo enfraquecimento dos movimentos sociais organizados.

Francisco de Guimaraens ponderou que é preciso discutir a relação dos movimentos com o estado com o cuidado de não jogar fora a água da bacia com a criança junto. Esse debate não deveria ser seqüestrado pela direita nem pela esquerda estatista. Disse que é preciso discutir quanto e quando o estado é comum.

<strong>O público e o comum</strong>

Vale observar que o debate considerou uma base conceitual que diferencia três ordens de domínios: o privado, o público e o comum, o que repercute em noções relacionadas à propriedade e ao direito. O conceito de comum tem sido discutido a partir de trabalhos de Negri e Michael Hardt, entre outros autores, e diferencia-se da idéia de domínio público. Uma aproximação com o tema pode ser feita na leitura da <a href="http://www.freewebtown.com/dossie_negri/Antonio_Negri_constitui_comum.pdf">conferência de Negri no II Seminário Internacional sobre Capitalismo Cognitivo</a>, realizada no Rio de Janeiro em outubro de 2005, bem como em livros como Império e Multidão.

Também cabe assinalar que a problematização do papel do estado tem amplo destaque na crítica marxista muito antes dos ataques do neoliberalismo. 

<strong>Produção de subjetividade</strong>

Outro aspecto da crise comentado no debate relaciona-se à produção de subjetividade. Na crise anterior, dos anos 70 e 80, vivíamos sob ditadura e o país enfrentava uma crise fiscal. Isso contribuiu para formar uma subjetivação que legitimou as políticas neoliberais e a idéia do estado mínimo. Cabe indagar, portanto, que processos de subjetivação estão ocorrendo agora, nesta crise?

<strong>A conta da crise</strong>

Também foi ressaltado que a crise não é simplesmente uma questão técnica. É preciso atenção aos seus efeitos sobre a dinâmica dos movimentos, principalmente a pressão para reduzir os orçamentos das políticas sociais. Negri e outros participantes comentaram o crescimento dos atuais movimentos globais que questionam e protestam contra o pagamento pelos mais pobres dos custos da crise econômica.

<strong>Patrocínio e aparelhamento</strong>

Concluo este registro sobre a 'Oficina de 18 de Dezembro' com uma especulação e uma indagação:

Hoje, como assinala Negri, não se governa sem os movimentos sociais. Há uma circulação política potente na relação entre os movimentos e o governo, produzindo políticas públicas de interesse da sociedade. Mas essa relação também é de patrocínio em diversos casos no Brasil. Se isso propicia suporte material também limita a autonomia e a liberdade dos movimentos e favorece vícios próprios do público e do privado. Cabe discutir, portanto, como essa relação de patrocínio afeta os movimentos e o próprio governo. Será que a debilidade de alguns movimentos sociais e mesmo o empobrecimento do repertório conceitual da esquerda não decorre do vício do aparelhamento político, entendido como promiscuidade na relação entre movimentos e governo?
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    <title>RECESSÃO E DILEMAS DUVIDOSOS</title>
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    <published>2008-11-02T19:55:48Z</published>
    <updated>2008-11-02T20:10:49Z</updated>

    <summary>Vamos ficar atentos ao que realmente importa: à briga pelo dinheiro e, sobretudo, à construção do caminho para sair da crise. É bem conhecido o poder da imprensa na produção de realidades. E sabemos que não há neutralidade nem inocência...</summary>
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        <![CDATA[<div style="text-align: center;"><strong><big>Vamos ficar atentos ao que realmente importa: à briga pelo dinheiro e, sobretudo, à construção do caminho para sair da crise.</big></strong></div>

É bem conhecido o poder da imprensa na produção de realidades. E sabemos que não há neutralidade nem inocência na informação. Há sempre valor na escolha do que e como informar.

Não é realista imaginar a mídia imune a conflitos políticos e filosóficos e, menos ainda, aos interesses econômicos. Por isso mesmo, devemos ter sempre em conta que notícias e comentários têm o poder de fortalecer e enfraquecer expectativas, de valorizar e desvalorizar ativos e de influenciar decisões de governo.

No caso da cobertura desta crise econômica, parecem prevalecer numa parte importante da imprensa brasileira duas tendências que merecem ser acompanhadas e avaliadas por suas influências e seus efeitos. Uma é a profecia recessionista e a outra é a ressurreição do conflito entre liberais e intervencionistas. 

Dizer que a recessão é inelutável é uma idéia tão falsa e nociva como dizer que não há recessão.

Atribui-se, em amplos e privilegiados espaços da mídia, um sentido universal, absoluto e inelutável à recessão, que evidentemente já começou em diversos países. O resultado é a multiplicação do medo e a indução a decisões alimentadoras de mais recessão. É uma profecia auto-realizável, aquela que cumpre a si mesma.

É claro que uma situação grave como esta crise, exige da imprensa esforço para revelar perdas, causas, riscos e ameaças. Mas também é preciso mostrar possibilidades e oportunidades. O trabalho que se faz e o que pode ser feito para atenuar e vencer a crise. E apontar as diferenças. Há os que perdem e também os que ganham. Há os que são mais e menos afetados.

Há decisões que estão sendo e serão tomadas que podem antecipar ou retardar soluções. E que irão alocar os custos da crise entre indivíduos, empresas e países.

Vale observar que a parte da mídia que parece mais empenhada em generalizar e potencializar a recessão é a mesma que mais fomentou, durante décadas, a profecia da felicidade eterna prometida pelos que comandaram a economia global nesse período. 

Mais do que noticiaristas e comentaristas, alguns jornalistas foram co-protagonistas dessa história. Hoje, estes mesmos passaram a ser os mais assíduos e radicais disseminadores de informações e conceitos igualmente nocivos à sociedade, agora na direção contrária.

Não é certo que a recessão vai ser tão grave no Brasil como em outros países e também que a única coisa a fazer é esperar a desgraça. É preciso, ao menos, dar espaço à dúvida sobre a possibilidade de sofrermos menos e mesmo de termos oportunidades nesta crise. Na maioria das vezes isso não é considerado ou é desacreditado liminarmente.

Também não é correto dizer que todas as medidas do atual governo são erradas. Isso de culpar e atacar o governo de forma irrestrita evoca a mesma atitude do PT quando era oposição, demonizando o presidente Fernando Henrique. Já é hora da política no Brasil sair deste redemoinho.

A outra tendência da cobertura da crise é a ressurreição do debate entre liberais e intervencionistas. Como isso ressoa a coisa do além, vale recordar o defunto Brás Cubas, em suas Memórias Póstumas: "ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares".  

Talvez seja esta compulsão tão humana de confundir público e privado que explique a volta da velha rusga entre liberais e intervencionistas com força suficiente para comandar a pauta da cobertura da crise econômica. Afinal, há muito dinheiro em jogo e a vitória ou derrota de uma idéia, mesmo combalida, significa alguns bilhões a mais ou a menos em rubricas orçamentárias e contas bancárias.

Artigos e comentários revigoram, assim, dilemas duvidosos como estado e mercado; regulação e liberdade financeira; investimento público e responsabilidade fiscal; demanda interna e exportação; e programas sociais e boa governança.

Mais sábio é reconhecer que um lado não vive sem o outro. E ficar atento para o que realmente importa: a briga pelo dinheiro e, sobretudo, a construção do caminho para sair da crise.

Isso vai depender menos desse debate carcomido e mais da lucidez da sociedade e do pragmatismo de governantes para restabelecer o crédito e os investimentos.

O que parece haver de comum nestas duas tendências da cobertura da crise é o efeito de mais turvar que clarear os acontecimentos e as perspectivas de solução. Em horas como esta, em que não há segurança em relação a diagnósticos e remédios, é que a sociedade mais precisa da mídia para se informar e buscar elementos para refletir. É nesta hora que o poder da imprensa é maior. E também é maior a sua responsabilidade por afetar o presente e influenciar o futuro.   
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    <title>A PROFECIA AUTO-REALIZÁVEL DA RECESSÃO</title>
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    <published>2008-10-19T14:55:32Z</published>
    <updated>2008-10-19T21:15:39Z</updated>

    <summary>Dizer que a recessão é inelutável é uma profecia auto-realizável. Fomentar a recessão é tão ruim como dizer que a crise não vai nos afetar. Há muito poder no ato de informar. Não há neutralidade na informação. Há sempre valor...</summary>
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        <![CDATA[<div style="text-align: center;"><big><strong>Dizer que a recessão é inelutável é uma profecia auto-realizável. Fomentar a recessão é tão ruim como dizer que a crise não vai nos afetar.</strong></big></div>

Há muito poder no ato de informar. Não há neutralidade na informação. Há sempre valor na escolha do que e como informar.

Como em qualquer situação, é preciso um esforço da mídia para mostrar a gravidade da crise econômica atual: perdas, causas, riscos e ameaças.

Mas também é preciso mostrar as possibilidades e oportunidades. O trabalho que se faz e o que pode ser feito para atenuar e vencer a crise.

É preciso mostrar as diferenças. Há os que perdem e também os que ganham com a crise. Há os que são mais e menos afetados.

Há decisões que estão sendo e serão tomadas que podem antecipar ou retardar soluções. E que irão alocar os custos da crise entre indivíduos, empresas e países.

Quando um comentarista, um editor, um veículo orienta sua cobertura para dar um sentido universal, absoluto e inelutável à recessão, qual é o resultado que isso produz?

Isso multiplica o medo e induz a decisões alimentadoras de mais recessão. Produz uma profecia auto-realizável, aquela que cumpre a si mesma.

Vale anotar: Quem faz assim agora são os mesmos que produziram a profecia da prosperidade e da felicidade eternas prometidas no céu do mercado.

Este é o tema do artigo <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=507IMQ008">'Guerra de palavras pelo espólio da crise'</a>, que publiquei no portal do Observatório da Imprensa e que está também aqui neste site.

Também recomendo o artigo <a href="http://www1.oglobodigital.com.br/flip/index.php?ran=pIqk8g8trEcvTdC5W69Lh51dQJMqPl1yyWfljTY5WkTIFtMumH">'Atenuar os efeitos da crise'</a>, do deputado e ex-ministro Antônio Palocci, publicado no Globo de 19/10/2008.

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    <title>MINISTRO, NÃO ENFIE A FACA NO SOCIAL</title>
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    <published>2008-10-14T15:08:06Z</published>
    <updated>2008-10-14T18:58:53Z</updated>

    <summary>O que precisamos mais nesta hora é de ação política para evitar que os mesmos homens que nos levaram a esta crise mantenham o poder absoluto de antes, submetendo a sociedade aos mesmos interesses. Há uma guerra feroz pelo espólio...</summary>
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        <![CDATA[<div style="text-align: center;"><strong><big>O que precisamos mais nesta hora é de ação política para evitar que os mesmos homens que nos levaram a esta crise mantenham o poder absoluto de antes, submetendo a sociedade aos mesmos interesses.</big></strong></div>

Há uma guerra feroz pelo espólio da crise financeira global. Sabe-se que os mercados não serão como antes e que o capitalismo não será o mesmo. Mas que mundo surgirá daqui para frente?

Não se trata de adivinhar o mundo do futuro fugidio, mas de viver o mundo de amanhã mesmo, aquele no qual acordaremos depois da próxima noite. Ele está sendo moldado agora, minuto a minuto, no calor da crise, no embate entre os que querem os mercados mais ou menos vigiados pela sociedade e, sobretudo, na definição de quem pagará a conta dos danos e quem ganhará com a recuperação da economia global.

Aqui, o nosso ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse que "se precisar, vai enfiar a faca", referindo-se a cortes nos investimentos públicos e ao adiamento de programas sociais. E não são poucos os que preconizam mais do mesmo, ou seja, do mesmo catecismo da submissão da sociedade aos mercados, o catecismo que nos guiou para a crise.

Estes são os que acusam a <em>mão intervencionista do estado </em>de ter provocado a crise global, exatamente por desmontar e subverter os limites e controles que existiam no sistema financeiro norte-americano e de outros países. E qual foi o resultado disso? Foi deixar a <em>mão invisível do mercado </em>mais à vontade para multiplicar lucros sem lastro na realidade da economia.

Estes são os mesmos que acusam agora os governos de "estatismo exacerbado" porque decidiram comprar ações dos bancos, para evitar que a ruína deles seja a ruína de todos nós.

Ora, não existe a rigor, no capitalismo, conflito entre <em>mão do estado </em>e <em>mão do mercado</em>. A maior prova disso é esta mega operação de salvação de bancos pelos governos de todo o mundo. Diz o economista Robert Shiller, renomado especialista em crises financeiras: "O envolvimento dos governos com a economia é uma questão de medida, não de absolutos".

O estado intervém sempre, mesmo quando não intervém. Deixar os mercados à vontade é uma das formas mais perversas de intervenção. Significa soltar os predadores para o banquete na sociedade. Primeiro se saciam com os mais fracos; depois partem para se devorar. Aí a bolha - ou a bomba - explode.

Muito mais que um embate de idéias, a guerra feroz pelos despojos da crise é uma guerra de interesses. É uma luta pelo controle. Quem vai controlar quem a partir de agora? Quem vai mandar mais e fazer o mundo ser de acordo com o que quer?

O que testemunhamos nos últimos anos foi a exacerbação do controle sobre os indivíduos e a sociedade e a absoluta leniência com os mercados e o capital.

Vivemos sob um sistema capaz de saber tudo sobre cada um de nós, que nos vigia o tempo todo. Pense no que acontece se você deixar de pagar a conta do cartão de crédito ou se não declarar cem reais ao imposto de renda. Ao mesmo tempo, esse sistema fingia ignorar a farra irresponsável das finanças bilionárias.
 
Bem, agora os governos estão tendo de pagar o maior resgate da história da Humanidade para evitar que a sociedade seja massacrada pela crise causada pela orgia financeira.

As leis e os estados são produções dos homens e de seus interesses. O que precisamos mais nesta hora é de ação política para evitar que os mesmos homens que nos levaram a esta crise mantenham o poder absoluto de antes, submetendo a sociedade aos mesmos interesses.

Esta grande e urgente missão política é irmã de outra, igualmente desafiadora e imediata: não deixar o ministro enfiar a faca no social.

Ao contrário, ministro, a crise deve nos deixar com mais vontade de investir e trabalhar para que o mundo da próxima manhã seja melhor que este. O senhor sabe que a sustentabilidade da economia brasileira hoje vem de políticas econômicas responsáveis com a moeda e com o orçamento público. Mas o outro componente disso são as políticas de investimento, emprego, valorização dos salários e transferência de renda para os mais pobres.

É preciso acreditar e apostar nisso. E pensar livre do medo e do terror do mesmo. Estão presentes hoje possibilidades poderosas de mudança, não só para vencer esta crise, mas também para construir um modo de vida que corresponda à extraordinária capacidade do homem de produzir mais com menos trabalho e menos capital. Em vez de resultar na próxima bolha, isso pode e tem de ser conduzido - pela ação política da sociedade - para a introdução de padrões distributivos funcionais para os novos meios produtivos.

É esta escolha que está em jogo na guerra de palavras e de idéias pelo espólio da crise. 

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    <title>A FARRA DO CRÉDITO E O HOMEM ENDIVIDADO</title>
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    <published>2008-09-24T15:12:22Z</published>
    <updated>2008-09-24T15:23:51Z</updated>

    <summary>O mundo já vai ficar melhor por conta do convencimento de que não há sistema perfeito. E sobra o dever de espernear para que o custo da socialização do mega-rombo não fique para os mais pobres. Talvez essa seja a...</summary>
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        <![CDATA[<em><big><div style="text-align: center;"><strong><big>O mundo já vai ficar melhor por conta do convencimento de que não há sistema perfeito. E sobra o dever de espernear para que o custo da socialização do mega-rombo não fique para os mais pobres. Talvez essa seja a maior e mais urgente missão política da hora.</big></strong></div></big></em>

É preciso ter cuidado para não cair na mesma tentação dos profetas do pensamento único, que assinaram antes da hora o atestado de óbito da diferença. Eles saudaram a convergência das idéias - não só as econômicas - em torno do paradigma absoluto do mercado. Deu no que deu.

Não cabe, então, decretar o fim do liberalismo, mesmo depois da intervenção trilionária dos governos para conter o efeito dominó dos bancos quebrados. E parecem vãs as especulações sobre o que vai acontecer com o capitalismo.

Mas 2008 vai ser lembrado como o ano em que o capitalismo mudou. Mudou mais uma vez. O capitalismo se nutre da mutação. Tem fôlego de sete gatos. 

Evocando Marx, o filósofo Gilles Deleuze disse que o capitalismo é um "sistema imanente que não pára de expandir os próprios limites, reencontrando-os sempre numa escala ampliada, porque o limite é o próprio capital".

Os mais pessimistas dirão que o capitalismo mudou para pior. Esta é a finalidades deles. Teremos outra grande recessão e a miséria será maior para sempre. Os otimistas - se é que sobrou algum - e os menos pessimistas talvez vejam esta nova crise de forma menos sombria.

A Quebra de 1929 levou ao Welfare State, estado do bem-estar, que durou umas boas quatro décadas. Por que não é possível admitir agora algum controle da sociedade sobre o capital financeiro? E por que não admitir políticas globais de comunhão da imensa riqueza produzida pelos avanços da tecnologia e da ciência?

Não parece fazer sentido que uma economia que depende cada vez menos do trabalho insista em padrões primitivos de distribuição e em desperdiçar o imenso ganho de produtividade em crises sucessivas e guerras sem fim.

Afinal, o mundo real continua no mesmo lugar, produzindo suas misérias e maravilhas. Por que não botar algumas fichas em nossa capacidade de ir em direção do que fazemos e podemos fazer de melhor? 

Depois do enfraquecimento do estado do bem-estar e da derrocada do comunismo soviético, o triunfalismo liberal quis enterrar a esquerda e buscou desqualificar qualquer outra crítica ou proposta alternativa. Tudo que não glorificasse o deus mercado era jurássico e insano.

Ok, o Muro ruiu de podre. O estatismo coroou a imoralidade e a incompetência. Muitas políticas para proteger os desprotegidos falham e acabam superprotegendo os já protegidos. 

Mas é deplorável que esse fracasso tenha sido usado para penalizar políticas sociais e para promover a farra do crédito sem lastro. E pior, para sufocar a divergência e indultar liminarmente os que se locupletam da "exuberância irracional" e os que fecham os olhos diante da orgia financeira globalizada.

E agora? É pouco provável que a arrogância triunfalista liberal sobreviva ao choque dessa crise. E é certo que de nada vale trocar uma arrogância por outra. O fracasso do liberalismo desregrado não transforma em sucesso o fracasso do intervencionismo voluntarista.

O mundo já vai ficar melhor por conta do convencimento de que não há sistema perfeito. E sobra o dever de espernear para que o custo da socialização do mega-rombo não fique para os mais pobres. Talvez essa seja a maior e mais urgente missão política da hora.

Vale, também, estar atento à sedução do endividamento. Pelo menos aqui no Brasil, o comércio e as financeiras continuam distribuindo dinheiro fácil, a perder de vista. É bobagem querer demonizar o crédito. Mas é bom ter cuidado para não empenhar a alma.

A farra do crédito vem de longe e o primeiro aviso público da crise chegou na metade de 2006, com a disparada dos juros imobiliários nos Estados Unidos. Desde então, cada capítulo da novela parece validar outra formulação de Deleuze (para ficarmos no mesmo filósofo). Ele observou que o homem endividado é o sujeito dessa versão contemporânea do capitalismo, que depende cada vez menos da coerção explícita para exercer o controle social. No lugar do medo do inferno ou da prisão basta agora a alegria do cartão de crédito.
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    <title>SAMBA DO BOM NO SALGUEIRO</title>
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    <published>2008-09-15T03:23:25Z</published>
    <updated>2008-09-15T04:13:54Z</updated>

    <summary>Alegre e difícil é a vida do sambista. Me refiro ao compositor de samba de enredo. Não basta fazer um bom samba, ou mesmo ótimo. Tem de concorrer na quadra da escola e ser escolhido entre dezenas de outros, às...</summary>
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        <![CDATA[<strong><big>Alegre e difícil é a vida do sambista. Me refiro ao compositor de samba de enredo. Não basta fazer um bom samba, ou mesmo ótimo. Tem de concorrer na quadra da escola e ser escolhido entre dezenas de outros, às vezes entre outros também bons e ótimos. E se trata de verdadeira campanha eleitoral. Além da qualidade do samba, pesam a interpretação, a divulgação, marketing e até a chamada luta política, nos sentidos melhores e piores do conceito.</big></strong>

Uma mensagem do Aberto Mussa me animou a ir ao ensaio do Salgueiro, nesta temporada de eleição do samba-enredo, que vai de agosto a outubro. Mussa é um dos meus escritores preferidos e faz parte do time de autores de um bonito samba, que concorre à glória de conduzir a escola na avenida no Carnaval de 2009. O enredo é "<a href="http://tambor.salgueiro.com.br/">Tambor</a>", tema inspirado e feliz em sua beleza e simplicidade. Recomendo conferir a interpretação do samba do Mussa: <span class="mt-enclosure mt-enclosure-file"><a href="http://www.estemundopossivel.com.br/blog/tambor.doc">tambor.doc</a></span><span class="mt-enclosure mt-enclosure-audio"><a href="http://www.estemundopossivel.com.br/blog/salgueiro%202009.wma">salgueiro 2009.wma</a></span>

Autor do romance O Trono da Rainha Jinga (entre outras obras), Mussa conhece a história da cultura negra no Rio de Janeiro. Vale ler o pequeno texto com reflexões dele sobre as <a href="http://www.obraemprogresso.com.br/tag/alberto-mussa/">origens do samba</a>, publicado no site Obra em Progresso. Fui testemunha de sua alegria e garra na quadra do Salgueiro neste sábado. Não sei, no momento que escrevo, se o samba ultrapassou mais esta eliminatória. Desejo que sim e que seja o vencedor no dia 11 de outubro. 
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