

Mamãe no Bar Lagoa
Mamãe estava ótima hoje no almoço no Bar Lagoa. Tem estado ótima nas últimas vezes. Disse, depois do primeiro chope, que andava deprimida, mas foi só beber aquele e já estava bem. Contou novidades do passado. As histórias se repetem mais quando a gente envelhece. Hoje ela contou algumas das velhas, mas veio coisa nova. Um passado novo, fresco. Em casa, depois do almoço, Val disse que estava pensando nas tardes de domingo com a família, em Bonsucesso, quando era criança. Os pais iam dormir. Ela lembrou de um trecho que tinha lido no jornal de ontem: "tudo fica lá atrás, nublado como um conto de fadas" (Bete Orsini, perfil de Julio Rego, no Ela). Surgem às vezes, nessas nuvens do passado, imagens cristalinas, como a água da cacimba da casa em Maceió. Talvez provocada pelo sabor do chope, mamãe lembrou da água dessa cacimba, a mais saborosa que ela bebeu. "Água que se bebe com gosto". A cacimba ficava no quintal da casa em que foi morar com Pedro. Um quintal comum a umas seis casas. O trem passava bem na frente. A jovem e bela Marieta acordava com o apito do primeiro trem, às dez da manhã. "Era água de uma vertente, limpíssima". Imagine o sabor dessa água. Mamãe também contou uma história de 1938, quando anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar. A menina Marieta vivia e trabalhava com um tio, o Tio João, em Atalaia, "um lugar onde nada acontecia". Era da parte mais pobre da família e trabalhava de graça na loja do tio. A coisa mais divertida era jogar víspora. A sogra do Tio João, a Babu, "uma mulher muito bonita, um mulherão", dava quinhentos réis de vez em quando para Marieta ir jogar. Se perdesse, estava perdido; se ganhasse dava tudo pra Babu, que não queria o dinheiro, mas Marieta não podia ficar com nada. Não tinha salário, como ia justificar ter dinheiro? Babu podia ser avó de Marieta, mas eram amigas e confidentes. Babu ajudava a amiga como podia, se preocupava com ela. Gostava de jogar, perdia o dinheiro que o filho mandava da Bahia e ainda fazia dívidas. O filho cortou a verba, mas Babu tinha uma chave do cofre do Tio João e às vezes pegava algum "emprestado". Na noite em que o mundo ia se acabar, Babu encheu uma tigela de leite e pão e se empanturrou. Não ia morrer de barriga vazia.
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