
Além de prazer estético, a exposição Virada Russa nos dá a oportunidade de atualizar o conceito de revolução.
São 123 obras de artistas como Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, entre outros, em exibição no CCBB do Rio, de 23 de junho a 23 de agosto. A expo esteve em Brasília e vai também para São Paulo.
Esses artistas mudaram a arte no instante em que a Revolução Russa ainda era revolução.
Como explica o professor Pedro Duarte de Andrade no inspirado artigo Política e Arte na Rússia da Revolução (Prosa e Verso, O Globo, 20/10/2007), após a Revolução de 1917, a Rússia assistiu ao casamento feliz entre política e arte. Mas logo veio o divórcio. Artigo Arte na Rússia da Revolução.pdf
A vitalidade artística sucumbiu pouco tempo depois do breve lampejo da revolução, do acontecimento revolucionário. Mas ficaram as obras - a arte - e toda a sua força.
Quando os criadores destas obras passaram a ser perseguidos, presos e assassinados já não havia revolução. Havia burocracia e totalitalitarismo. E surgia o simulacro do realismo socialista.
A exposição, portanto, traz para hoje o instante revolucionário. É uma oportunidade de respirar esse ar.
Nas suas tantas críticas perturbadoras e profecias inquietantes, o Zaratustra de Nietzsche talvez tenha compreendido também o destino trágico das revoluções de trazerem o novo e também a sua negação:
"O que quer que eu crie e de que modo quer que o ame - breve terei de ser seu adversário, bem como o do meu amor: assim quer a minha vontade".
E Deleuze acrescentou bem mais tarde:
"Dizem que as revoluções têm um mau futuro. Mas não param de misturar duas coisas, o futuro das revoluções na história e o devir revolucionário das pessoas. Nem sequer são as mesmas pessoas nos dois casos".
Entendida, portanto, dessa forma, a idéia de revolução ultrapassa e atropela o sentido de tarefa. Não dá para dizer: "Pronto! Fizemos a revolução. Dever cumprido!". Revolução feita, é hora de fazer outra.
Mais, além e, mesmo, contra a tarefa feita, revolução é devir.
PS: REVOLUÇÃO - Embora ecoe nostálgica e debilitada, a palavra 'revolução' recupera, de tempos em tempos, parte de sua reputação de perigo e volta a impor certo respeito, mesmo depois de longos períodos de apropriação pela ideologia e pelo marketing, despojada de seu sentido estrito, de destruição e substituição de um regime político. Revoluções propriamente ditas, como define Abbagnano no Dicionário de Filosofia (ABBAGNANO, 2000: 858-859), foram a inglesa, a americana, a francesa e a russa. Ainda se fala - e muito - em revolução no sentido largo, quando se quer atribuir importância a uma mudança, seja na política, na economia, na arte, na ciência ou no futebol. Mas há também quem queira evitar a palavra ou mesmo bani-la, como ocorreu em 2004, na comemoração dos 30 anos da 'Revolução dos Cravos' em Portugal. O slogan do governo para celebrar a data, 'Abril é Evolução' provocou protestos da oposição socialista. Em todo o país, nos dias que antecederam o 25 de Abril, mãos anônimas acrescentaram o 'R' à palavra 'Evolução' nas peças da propaganda oficial. Mesmo não se tratando de uma revolução no sentido estrito, a elipse do 'R' não ocorreu, seguramente, por rigor técnico nem por respeito ao sentido político da palavra. É possível que mentes perspicazes e intuitivas, de dentro do próprio sistema dominante, tenham percebido algum revigoramento no sentido da palavra.
Está nas livrarias o belo e arrepiante romance Julia e o Mago, de Cecília Costa. O lançamento será no dia 17/6, quarta, às 19 horas, na Livraria Argumento, Leblon.
Cecília me alegrou com o convite para escrever a orelha do livro. Segue o texto:
Depois de lutar com a morte, de ver a alma voltar para o próprio corpo, Antônio se entrega à aventura de perseguir o amor em todos os instantes da vida e em todas as suas inesgotáveis possibilidades, as mais sublimes e as mais sórdidas. É assim que Julia decifra o mago, seu pai, e vive a aventura de também se desvelar. Ela inventa coragem para minerar os esconderijos da memória e confronta seus encontros e achados com narrativas e percepções do presente. Tudo é movediço e perturbador.
As histórias de Julia e o Mago nos trazem lembranças das alegrias e terrores mais primitivos e não nos deixam fugir do espelho. Evocam os obscuros e renitentes poderes da casa rodrigueana e nos põem a conviver com a opressão, as infidelidades, as conspirações, os pecados e, sobretudo, os amores de toda boa e velha família que se preza.
Este é um livro sobre os limites do amor. Ele nos conduz, em meio a trevas eternas e ao branco vazio, a luzes que cegam. Não vemos os limites do amor porque o desejo é infinito e, portanto, impossível de satisfazer. Antônio se consagra na épica dessa dependência desejante, do desejo que nunca se satisfaz, que é falta e é fora. Ao ressuscitar, o pai de Julia enfrenta a revelação de que não poderá mais fugir do amor fati, do destino de amar a vida incondicionalmente, mesmo o que ela tem de mais estranho e terrível, mesmo a infinitude do desejo.
Cecília Costa, que já havia se desnudado no seu Damas de Copas, explora agora, com Julia e o Mago, limites ainda mais críticos da autoficção. Não faz cerimônia nem tem pudor. Ela alcança, assim, a emoção e a verdade engendradas na tensão entre ficção e realidade, ou seja, o que a literatura tem de melhor a oferecer. Essa potência irrompe tanto nas histórias e personagens como na diversidade e na ousadia da maneira de contar, nas múltiplas vozes e na poesia das palavras, transformando em arte mesmo o mais rude cotidiano.
O livro de Cecília ainda nos presenteia com ricas e interativas alusões à família Mann, desde as matas mágicas de Angra dos Reis e Parati, de onde partiu Julia, a brasileira, mãe de Thomas, autor preferido de Antônio, até as montanhas geladas - e também mágicas - da Suíça.