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PENSANDO 1968: 'AQUI E AGORA'

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Por Altamir Tojal em 02 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)


Vale ler a entrevista de Antonio Negri e Giuseppe Cocco à jornalista Rachel Bertol, publicada neste sábado (31/5) no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo, com o título Reconquista da vida . Eles comentam as profundas mudanças sociais originadas e influenciadas pelos múltiplos movimentos e manifestações em escala planetária, que tiveram como marco o ano de 1968.

Reproduzo a seguir uma das respostas da entrevista e destaco alguns trechos. São reflexões que contribuem para elucidar um dos aspectos mais polêmicos e ao mesmo tempo mais centrais dessas mudanças, a sua importância política:

PERGUNTA: Há consenso sobre a vitória de 68 para a liberação dos costumes. Mas, no plano político, esse consenso não é claro...

NEGRI E COCCO: Esta é uma questão bastante importante. Por duas razões: em primeiro lugar porque muitas vezes nas manifestações sobre 68 destinadas à sua liquidação -- e a enterrar qualquer pensamento de transformação -- enfatizam-se apenas os eventos ligados aos movimentos estudantil ou cultural. Depois porque alguns trabalhos de sociologia, embora com uma preocupação diferente, assumem a separação entre as dinâmicas estudantil e operária para afirmar que os "limites" de 68 dizem respeito exatamente a essa clivagem. No primeiro caso, é uma operação bem simples: põe-se em segundo plano ou até se ignora que o Maio de 68 francês foi o teatro de uma das maiores greves gerais da história moderna. No Brasil, assistimos a uma dupla operação: de um lado, reduz-se a dimensão dramática e heróica da Marcha dos Cem Mil e apagam-se de vez as gloriosas lutas operárias de Osasco e Contagem; de outro, há uma valorização dos comportamentos transgressivos para reduzir os movimentos culturais a um fácil e inócuo modismo balneário, bem típico da elite carioca. No caso dos sociólogos, a operação é mais sutil e perigosa: passa pela oposição entre o que teria sido a luta operária (e sua "crítica social"), a estudantil e a dos outros sujeitos sociais (feministas, minorias étnicas, sexuais), que teriam abandonado o terreno do social (da emancipação) por reivindicações de tipo cultural (o que teria sido uma "crítica artística"). Assim, tanto a glamourização quanto a vampirização de 68 oferecem discursos mistificadores ou inadequados. Nunca houve essa divisão, nem em 1968 nem ao longo da década de 1970. Muito pelo contrário. Em 68, juntava-se, num mesmo e potente ciclo, uma multiplicidade de singularidades: estudantes, jovens, operários, mulheres etc. Todas essas lutas se voltam contra a sociedade disciplinar, fosse ela abertamente patriarcal (no caso das relações de gênero ou entre as gerações) ou fabril (no caso das relações tayloristas de trabalho). Na chamada "critica artística", havia os germes de um novo tipo de movimento, afirmativo e potente. As práticas de libertação não estariam mais subordinadas ao horizonte longínquo da emancipação. Resolver as questões de discriminação significa operar uma crítica bem mais eficaz da ordem social do capital! Como dissemos, 68 foi a experimentação de outras formas de existência: não em outro lugar, nem outro mundo "melhor" e sem o capital, mas aqui e agora! A luta operária se tornou desmedida e ingovernável quando se juntou às lutas sociais que se constituíam dentro da que é tida como "reprodução", quando na realidade é a própria produção da vida. Com isso, afirmava-se a possibilidade de uma verdade, de um sentido, que não era mais o fruto paradoxal de seu contrário, a não-verdade da subordinação. Essa passagem, como acabamos de enfatizar, se deu com formas de subjetivação conseguiram produzir sua própria verdade e, assim, esvaziar os dispositivos disciplinares, ao passo que se afirmavam como máquinas de libertação. São as lutas sociais de tipo novo que se desenvolveram a partir de 1968 que definem esse deslocamento. Lutas novas porque assumem a mobilização produtiva da esfera da reprodução como terreno de constituição autônoma, antagônica à ordem disciplinar da fábrica. São questões extremamente atuais porque o trabalho se difundiu pela sociedade, além da relação salarial, envolvendo a própria vida em seu conjunto. Não faz sentido separar o que acontece no nível das formas de vida (as práticas de libertação de mulheres, negros, gays, lésbicas, migrantes estrangeiros) do que acontece nas dinâmicas políticas e econômicas. À ofensiva biolítica (a potência da vida) da década de 1970, o poder respondeu se tornando biopoder, poder sobre a vida como um todo, como dizia Foucault. É por essas linhas que passam os novos conflitos sociais. Eles envolvem ao mesmo tempo as questões sociais, econômicas e políticas, ou seja, a própria democracia.

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