Voltar a página principal

Arquivo de junho 2008

AMOR AO DESEJO

barra
Por Altamir Tojal em 14 de junho de 2008 | Link | Comentários (4)


Thumbnail image for Roberto.jpg Escrevi o texto a seguir para a apresentação do livro Eus do poeta e grande amigo Roberto Schneider, lançado este ano pela editora Bom Texto:

"Dá, Senhor, dá logo ela ao poeta! A amada, a que passa, a do sonho. Todas e uma. A cada verso, a cada poema, o amor acontece aqui em sins e nãos, junto e além, sempre verdadeiro e feliz, entre estupros e caixinhas de música. Amor ao amor. Mais que isso, amor ao desejo. Portanto, ao chegar à Carta ao Senhor, o vigésimo terceiro canto do livro, se contei direito (aconselho que não pule nenhum), você estará dominado, tomado de absoluta simpatia e total solidariedade ao poeta e também rogará ao Senhor para entregar-lhe a musa em carne, calor e perfume. E penso, leitora, se for você essa mulher desejada, ela mesma, desejará entregar-se depressa. Depois siga lendo - tem mais desejo e poesia - verso a verso, poema a poema.

Roberto Schneider fez muita gente rir e pensar com dois livros publicados nos anos oitenta, O guia do assaltado (Nórdica e Círculo do Livro) e As quatro virgens e a Corrente de Trewis Scott (Círculo do Livro), obras de humor leve e cruel, delicadamente abrasivo. Nesse gênero, há também uma coleção de histórias, ainda não publicadas, O rei e o abutre e outras fábulas da comunicação. Há a dramaturgia de O bom voyeur, em versos de amor e desprezo, desejos supremos e paixões sem fim. O mesmo coração e a mesma voz na diferença do tempo e na diversidade das formas. É uma obra que se evoca e se dá sentido, um percurso preciso no labirinto da literatura, coleção de encontros e escolhas, emoções e descobertas até o lugar da bela poesia deste Eus".

Este poeta nos deixou ao 59 anos, enquanto o seu Eus ainda estava no prelo. Jornalista, publicitário, escritor e pessoa de cultura e humor refinadíssimos, Roberto Schneider estreou como repórter na seleção de jornalistas da revista Visão, onde atuavam Zuenir Ventura, Vladimir Herzog, Luís Weis, Otto Maria Carpeaux e Luiz Alberto Bahia, entre outros. Foi redator publicitário e, mais tarde, diretor de diversas agências de propaganda. Foi chefe da Assessoria de Comunicação Social da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e consultor de comunicação de outras empresas e instituições.

Comentários (4)


CONDOR, O FILME

barra
Por Altamir Tojal em 09 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)


Partidarismo e sentimentalismo são, neste caso, virtudes e não defeitos. O filme reforça, com alta dose de humanidade, o seu conteúdo histórico e político.

O filme Condor, de Roberto Mader, é uma obra que toma partido: traz à luz (e esta exposição é por si só uma denúncia) um caso de terrorismo de estado ocorrido há pouco tempo, aqui mesmo no Brasil e nos países vizinhos do Cone Sul, materializado na aliança das ditaduras militares que dominaram a região entre os anos 60 e 80. Essa ação conjunta deixou um enorme saldo de assassinatos, prisão e tortura de adversários, além de "desaparecidos", entre os quais muitas crianças roubadas de seus pais.

Condor é um documentário. E como tal tem sido aplaudido e premiado, seja pela escolha do tema, seja pela qualidade jornalística da investigação, da pesquisa e das entrevistas. Estas trazem revelações e sentimentos extraídos de protagonistas históricos dos dois lados - se assim podemos nos referir a uma luta tão assimétrica - e de personagens trágicos, alguns dos raros jovens-adultos que puderam ser identificados e confrontados com suas famílias naturais, entre aqueles inúmeros bebês criados em outros lares, com outra identidade.

Há uma virtual unanimidade quanto a estas virtudes do filme. Mas há restrições e condenações, que recaem sobre o seu partidarismo e, também, sobre a exploração sentimental do drama das crianças seqüestradas e de suas famílias, as que ficaram sem os seus e as que passaram a viver a ameaça de perdê-los e a realidade de ter de compartilhá-los com aqueles estranhos e sofridos pais, avós e irmãos de "desaparecidos" encontrados.

Entendo que partidarismo e sentimentalismo são, neste caso, virtudes e não defeitos. Qual é o jornalismo que não toma partido? Que jornalismo funciona sem emoção?

Comecemos pelo partidarismo. Quando saí do cinema depois de ver o filme e fui tomar um café, uma senhora me abordou no balcão do bar da Casa Laura Alvim e perguntou se eu gostara do filme. Foi como se ela me despertasse de supetão. Eu ainda estava emocionado, na atmosfera daqueles acontecimentos. Respondi que sim, que tinha gostado. Ela retrucou. Disse que o filme condenava as ditaduras militares, mas era indulgente com os movimentos e as pessoas que pretendiam impor ditaduras de esquerda como a de Fidel.

Respondi que, a meu ver, um mal não deve justificar outro mal, que a existência ou a ameaça de ditaduras comunistas não são razões suficientes para a instauração de ditaduras de direita ou quaisquer que sejam. Bem, não conseguimos concordar.

Acrescento agora: quem acreditar que não tem escolha entre o mal e o mal, que assuma as conseqüências. Quem jamais esteve nessa encruzilhada?

O filme de Mader trata de uma história obscura e esquecida. É possível que a grande maioria dos jovens e mesmo dos não tão jovens não saibam ou não lembrem o que foi a "Operação Condor". Temos aqui um dos bons serviços prestados pelo filme: ele lembra e ensina que este foi o nome dado à cooperação entre as ditaduras militares sul-americanas para seqüestro, prisão e assassinato de seus oponentes. Também lembra a uns e ensina a outros que havia na época um conflito globalizado opondo as potências ocidentais e o comunismo soviético, e que este conflito influenciava e atuava sobre as disputas políticas regionais e locais, como as que ocorriam em nosso continente.

Estamos falando de um filme, de um documentário, não de uma aula de sociologia, mas vale registrar que ele ainda ensina e lembra que havia movimentos revolucionários comunistas, alguns propondo o uso da força, e havia governos democráticos eleitos e com forte apoio popular a seus projetos de mudanças sociais. Em nome de combater aqueles movimentos, os militares e seus aliados derrubaram esses governos pela força e impuseram a repressão e o terror político não só aos comunistas e àqueles que ousavam enfrentá-los, mas a toda a sociedade.

Vivi intensamente aquela era e não poderia deixar de ser tocado e levado a lembranças e reflexões. Eu era um garoto politizado em 1964, como outros poucos. Militava no movimento estudantil. Naquele final de março e início de abril me entreguei febrilmente a comícios e frágeis barricadas para resistir ao golpe. Sofri, então, a minha primeira e maior derrota política. Depois dos primeiros momentos de choro, raiva e de medo, voltei a me reunir com um punhado de colegas da minha e de outras escolas, todos meninos de 16 e 17 anos. Lembro que nos encontramos num fim de tarde na escadaria da Biblioteca Nacional. Havia, na Cinelândia, uma mobilização de gente a favor do governo militar, com faixas e alto-falantes. Ficamos ali refletindo sobre aquilo, sobre o que iríamos fazer, e não saía do meu coração o pavor de passar o resto da vida sob uma ditadura.

Este sentimento talvez seja uma chave para a compreensão dos movimentos de resistência às ditaduras daquela época. Alguns de nós (ou todos) talvez quiséssemos mesmo uma revolução - comunista ou lá o que fosse - mas também não suportaríamos a condição de viver sem liberdade. Muitos de nós, não tenho dúvida, seríamos os primeiros a insurgir se a tal ditadura comunista acontecesse.

Enfim, Condor é mesmo um filme partidário, que lembra, ensina e provoca reflexões, que podem nos ajudar a compreender o passado e talvez o presente. É também um alerta contra tentações políticas, aventuras e supostas soluções que ameaçam e sacrificam a liberdade e a democracia. O que significam hoje a Guerra do Iraque, Guantânamo e a exacerbação do controle em escala global (sobre indivíduos e sociedades) em nome do combate ao terrorismo fundamentalista árabe?

Condor também nos emociona com sofridas histórias de vida, histórias de superação, esperança e, ainda, de perplexidade, que reforçam o conteúdo histórico e político do filme com alta dose de humanidade.

Comentários (0)


PENSANDO 1968: 'AQUI E AGORA'

barra
Por Altamir Tojal em 02 de junho de 2008 | Link | Comentários (0)


Vale ler a entrevista de Antonio Negri e Giuseppe Cocco à jornalista Rachel Bertol, publicada neste sábado (31/5) no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo, com o título Reconquista da vida . Eles comentam as profundas mudanças sociais originadas e influenciadas pelos múltiplos movimentos e manifestações em escala planetária, que tiveram como marco o ano de 1968.

Reproduzo a seguir uma das respostas da entrevista e destaco alguns trechos. São reflexões que contribuem para elucidar um dos aspectos mais polêmicos e ao mesmo tempo mais centrais dessas mudanças, a sua importância política:

PERGUNTA: Há consenso sobre a vitória de 68 para a liberação dos costumes. Mas, no plano político, esse consenso não é claro...

NEGRI E COCCO: Esta é uma questão bastante importante. Por duas razões: em primeiro lugar porque muitas vezes nas manifestações sobre 68 destinadas à sua liquidação -- e a enterrar qualquer pensamento de transformação -- enfatizam-se apenas os eventos ligados aos movimentos estudantil ou cultural. Depois porque alguns trabalhos de sociologia, embora com uma preocupação diferente, assumem a separação entre as dinâmicas estudantil e operária para afirmar que os "limites" de 68 dizem respeito exatamente a essa clivagem. No primeiro caso, é uma operação bem simples: põe-se em segundo plano ou até se ignora que o Maio de 68 francês foi o teatro de uma das maiores greves gerais da história moderna. No Brasil, assistimos a uma dupla operação: de um lado, reduz-se a dimensão dramática e heróica da Marcha dos Cem Mil e apagam-se de vez as gloriosas lutas operárias de Osasco e Contagem; de outro, há uma valorização dos comportamentos transgressivos para reduzir os movimentos culturais a um fácil e inócuo modismo balneário, bem típico da elite carioca. No caso dos sociólogos, a operação é mais sutil e perigosa: passa pela oposição entre o que teria sido a luta operária (e sua "crítica social"), a estudantil e a dos outros sujeitos sociais (feministas, minorias étnicas, sexuais), que teriam abandonado o terreno do social (da emancipação) por reivindicações de tipo cultural (o que teria sido uma "crítica artística"). Assim, tanto a glamourização quanto a vampirização de 68 oferecem discursos mistificadores ou inadequados. Nunca houve essa divisão, nem em 1968 nem ao longo da década de 1970. Muito pelo contrário. Em 68, juntava-se, num mesmo e potente ciclo, uma multiplicidade de singularidades: estudantes, jovens, operários, mulheres etc. Todas essas lutas se voltam contra a sociedade disciplinar, fosse ela abertamente patriarcal (no caso das relações de gênero ou entre as gerações) ou fabril (no caso das relações tayloristas de trabalho). Na chamada "critica artística", havia os germes de um novo tipo de movimento, afirmativo e potente. As práticas de libertação não estariam mais subordinadas ao horizonte longínquo da emancipação. Resolver as questões de discriminação significa operar uma crítica bem mais eficaz da ordem social do capital! Como dissemos, 68 foi a experimentação de outras formas de existência: não em outro lugar, nem outro mundo "melhor" e sem o capital, mas aqui e agora! A luta operária se tornou desmedida e ingovernável quando se juntou às lutas sociais que se constituíam dentro da que é tida como "reprodução", quando na realidade é a própria produção da vida. Com isso, afirmava-se a possibilidade de uma verdade, de um sentido, que não era mais o fruto paradoxal de seu contrário, a não-verdade da subordinação. Essa passagem, como acabamos de enfatizar, se deu com formas de subjetivação conseguiram produzir sua própria verdade e, assim, esvaziar os dispositivos disciplinares, ao passo que se afirmavam como máquinas de libertação. São as lutas sociais de tipo novo que se desenvolveram a partir de 1968 que definem esse deslocamento. Lutas novas porque assumem a mobilização produtiva da esfera da reprodução como terreno de constituição autônoma, antagônica à ordem disciplinar da fábrica. São questões extremamente atuais porque o trabalho se difundiu pela sociedade, além da relação salarial, envolvendo a própria vida em seu conjunto. Não faz sentido separar o que acontece no nível das formas de vida (as práticas de libertação de mulheres, negros, gays, lésbicas, migrantes estrangeiros) do que acontece nas dinâmicas políticas e econômicas. À ofensiva biolítica (a potência da vida) da década de 1970, o poder respondeu se tornando biopoder, poder sobre a vida como um todo, como dizia Foucault. É por essas linhas que passam os novos conflitos sociais. Eles envolvem ao mesmo tempo as questões sociais, econômicas e políticas, ou seja, a própria democracia.

Comentários (0)


© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Altamir Tojal, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site