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Florestas e 'dumping' reputacional

06/07/2010 | Comentários (0) | Economia | Por: Altamir Tojal

'Dumping' reputacional

Por Luiz Fernando Brandão

Entre Helvécia, distrito no extremo-sul da Bahia — região que concentra um dos bolsões de miséria do nosso país —, e Oslo, a impecável capital da Noruega, locais que visitei no espaço de apenas 15 dias, existe um fosso profundo. Que não é só a imensa desigualdade de riqueza, educação, oportunidades e bem-estar social.

É um fosso de desconhecimento, um hiato criado pela incapacidade de se compreender um outro mundo que coexiste neste mundo de nós todos. Um gap que os mais bem-intencionados esforços de educação, comunicação e engajamento, pelo menos no horizonte visível hoje, são incapazes de preencher.

A elegante senhora que se agacha, compungida e solícita, diante do jovem dependente químico maltrapilho e mendicante na imaculada Karl Johans Gate, a principal avenida de Oslo, terá idéia das condições em que vivem os milhões de miseráveis que lutam pela sobrevida nos confins interioranos do norte e nordeste brasileiros ou nas periferias de nossas metrópoles?

As centenas de turistas escandinavos que se comovem e mobilizam diante de enormes painéis exibindo fotos belíssimas de caçadores, mulheres e crianças indígenas amazônicos, nas ruas de Oslo, terão alguma idéia do contexto em que estes nossos povos originais sobrevivem em meio a outros 20 milhões de conterrâneos de todas as origens — européias, negras e asiáticas — que habitam a vasta Amazônia brasileira? Terão eles noção dos desafios de governança de um país de dimensões continentais como o nosso, com quase 200 milhões de habitantes e apenas 200 anos de história nacional, num mundo de economias globalizadas?

Os povos viquingues dominaram os mares do Norte entre os anos 800 e 1050 d.C. Navegadores, guerreiros e mercadores habilidosos, foram os primeiros europeus a pôr os pés na América do Norte. Em três séculos, conquistaram, saquearam, colonizaram e desapareceram — uns, talvez cansados do horror, assentados como agricultores ou dedicados à pesca; outros, dominados pelos que não conseguiram vencer no fio da espada e do machado. Seu DNA sobrevive em boa parte dos povos da Dinamarca, Suécia e Noruega, países de PIBs generosos, direta ou indiretamente turbinados pela exploração e comercialização de petróleo, que beneficiam um contingente total de menos de 20 milhões de pessoas.

Aqui, cabe remeter à questão essencial: nós, os humanos, em nossa trajetória sobre a Terra, continuamos longe de superar o desafio de nossa condição intrínseca, utilitarista quanto aos recursos naturais e leviana quanto às conseqüências de nossos atos e escolhas sobre nosso futuro comum. Enquanto essa pulsão não for domada, disciplinada, pouca esperança restará para as próximas gerações. A culpa e o imediatismo continuarão a prevalecer, mesmo por trás da fachada de ajuda humanitária, de altruísmo dos muito ricos com relação aos muito pobres. Esse quadro só poderá ser superado por novas visões de mundo que conciliem os avanços da ciência e da tecnologia com o entendimento de que somos um único povo, habitante e organicamente parte da Terra, e que só vencendo nossas diferenças poderemos sobreviver.

É uma pena que a superficialidade humana não nos permita usar com propriedade a riqueza de informações online que a era da internet nos oferece. A uma análise mais aprofundada das razões das nossas diferenças culturais e sociais, parecem preferíveis as conclusões simplistas que remetem ao ancestral embate entre o bem o mal. Parece mais fácil acreditar em acusações que materializem externamente um grande vilão e assim expiar nossa responsabilidade por cada abuso socioambiental que ocorre em qualquer canto do planeta. Responsabilidade pela omissão, responsabilidade pelo desinteresse, responsabilidade pela conveniência.

E então assistimos a algo que começa a se configurar como dumping reputacional de países, empresas e instituições. Um processo em que o hiato de compreensão entre realidades diferentes no planeta é utilizado como alavanca para reforçar percepções simplistas; em que situações complexas que requerem análises e soluções igualmente complexas veem-se reduzidas a uma visão maniqueísta, passando ao largo das infinitas nuances da vida real.

É assim que países do hemisfério norte encontram seus vilões na metade de baixo do planeta, tão distante de seus corações e mentes. Gente preparada e bem informada não raro dá crédito a fontes que nem ao menos se preocupam com a fidedignidade das histórias que propagam sobretudo pela Grande Rede. Por que lhes é tão difícil, por exemplo, perceber a enorme diferença que existe entre empresas que, malgrado suas imperfeições, dilemas e dificuldades, se esforçam por práticas socioambientais corretas, e aquelas inconsequentes e imediatistas?

Uma hipótese é que, para alguns cidadãos de países mais ricos, seja difícil admitir que interesses específicos de suas próprias economias possam estar por trás de denúncias que acolhem como verdadeiras. Afinal, em muitos casos, o desenvolvimento sustentado de países como o Brasil e o sucesso das nossas empresas podem representar ameaças para suas empresas ou para os empregos de alguns dos seus compatriotas. É melhor acreditar no vilão lá longe.

Mas há também uma parcela de responsabilidade dos governos, empresas e das ONGs de países emergentes, como o Brasil. É preciso um esforço maior – consistente e permanente – de comunicação daqui para o mundo dos ricos, para estabelecer os fatos e desfazer a confusão provocada pelas denúncias falsas, embaladas na defesa de causas nobres e em chavões politicamente corretos.

Uma missão na qual os comunicadores empresariais brasileiros devem se engajar o quanto antes, com seu conhecimento, experiência e redes de relacionamento, a bem do interesse de suas próprias organizações, de seus filhos e netos, do nosso país e do nosso futuro comum.

Luiz Fernando Brandão é consultor de comunicação, jornalista e tradutor.
 



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