BLOG

Twitter
Facebook

VIRADA RUSSA, A ARTE NA HORA DA REVOLUÇÃO

17/06/2009 | Comentários (0) | Arte | Por: Altamir Tojal

Além de prazer estético, a exposição Virada Russa nos dá a oportunidade de atualizar o conceito de revolução.

São 123 obras de artistas como Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, entre outros, em exibição no CCBB do Rio, de 23 de junho a 23 de agosto. A expo esteve em Brasília e vai também para São Paulo.

Esses artistas mudaram a arte no instante em que a Revolução Russa ainda era revolução.

Como explica o professor Pedro Duarte de Andrade no inspirado artigo Política e Arte na Rússia da Revolução (Prosa e Verso, O Globo, 20/10/2007), após a Revolução de 1917, a Rússia assistiu ao casamento feliz entre política e arte. Mas logo veio o divórcio.

Artigo Arte na Rússia da Revolução.pdf


A vitalidade artística sucumbiu pouco tempo depois do breve lampejo da revolução, do acontecimento revolucionário. Mas ficaram as obras - a arte - e toda a sua força.

Quando os criadores destas obras passaram a ser perseguidos, presos e assassinados já não havia revolução. Havia burocracia e totalitalitarismo. E surgia o simulacro do realismo socialista.

A exposição, portanto, traz para hoje o instante revolucionário. É uma oportunidade de respirar esse ar.

Nas suas tantas críticas perturbadoras e profecias inquietantes, o Zaratustra de Nietzsche talvez tenha compreendido também o destino trágico das revoluções de trazerem o novo e também a sua negação:

"O que quer que eu crie e de que modo quer que o ame - breve terei de ser seu adversário, bem como o do meu amor: assim quer a minha vontade".

E Deleuze acrescentou bem mais tarde:

"Dizem que as revoluções têm um mau futuro. Mas não param de misturar duas coisas, o futuro das revoluções na história e o devir revolucionário das pessoas. Nem sequer são as mesmas pessoas nos dois casos".

Entendida, portanto, dessa forma, a idéia de revolução ultrapassa e atropela o sentido de tarefa. Não dá para dizer: "Pronto! Fizemos a revolução. Dever cumprido!". Revolução feita, é hora de fazer outra.

Mais, além e, mesmo, contra a tarefa feita, revolução é devir.

PS: REVOLUÇÃO - Embora ecoe nostálgica e debilitada, a palavra 'revolução' recupera, de tempos em tempos, parte de sua reputação de perigo e volta a impor certo respeito, mesmo depois de longos períodos de apropriação pela ideologia e pelo marketing, despojada de seu sentido estrito, de destruição e substituição de um regime político. Revoluções propriamente ditas, como define Abbagnano no Dicionário de Filosofia (ABBAGNANO, 2000: 858-859), foram a inglesa, a americana, a francesa e a russa. Ainda se fala - e muito - em revolução no sentido largo, quando se quer atribuir importância a uma mudança, seja na política, na economia, na arte, na ciência ou no futebol. Mas há também quem queira evitar a palavra ou mesmo bani-la, como ocorreu em 2004, na comemoração dos 30 anos da 'Revolução dos Cravos' em Portugal. O slogan do governo para celebrar a data, 'Abril é Evolução' provocou protestos da oposição socialista. Em todo o país, nos dias que antecederam o 25 de Abril, mãos anônimas acrescentaram o 'R' à palavra 'Evolução' nas peças da propaganda oficial. Mesmo não se tratando de uma revolução no sentido estrito, a elipse do 'R' não ocorreu, seguramente, por rigor técnico nem por respeito ao sentido político da palavra. É possível que mentes perspicazes e intuitivas, de dentro do próprio sistema dominante, tenham percebido algum revigoramento no sentido da palavra.

O Marujo - Vladimir Tatlin.jpg


O Marujo - Vladimir Tatlin




Comentários

Nenhum comentário para esse post.
Deixe seu comentário agora.

Campos marcados com * são de preenchimento obrigatório

Digite os caracteres da imagem no campo abaixo

ESTE MUNDO POSSÍVEL © | Todos os direitos reservados.
Todos os textos por Altamir Tojal, exceto quando indicado.
Antes de usar algum texto, consulte o autor.