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A FARRA DO CRÉDITO E O HOMEM ENDIVIDADO

24/09/2008 | Comentários (5) | Economia | Por: Altamir Tojal

O mundo já vai ficar melhor por conta do convencimento de que não há sistema perfeito. E sobra o dever de espernear para que o custo da socialização do mega-rombo não fique para os mais pobres. Talvez essa seja a maior e mais urgente missão política da hora.


É preciso ter cuidado para não cair na mesma tentação dos profetas do pensamento único, que assinaram antes da hora o atestado de óbito da diferença. Eles saudaram a convergência das idéias - não só as econômicas - em torno do paradigma absoluto do mercado. Deu no que deu.

Não cabe, então, decretar o fim do liberalismo, mesmo depois da intervenção trilionária dos governos para conter o efeito dominó dos bancos quebrados. E parecem vãs as especulações sobre o que vai acontecer com o capitalismo.

Mas 2008 vai ser lembrado como o ano em que o capitalismo mudou. Mudou mais uma vez. O capitalismo se nutre da mutação. Tem fôlego de sete gatos.

Evocando Marx, o filósofo Gilles Deleuze disse que o capitalismo é um "sistema imanente que não pára de expandir os próprios limites, reencontrando-os sempre numa escala ampliada, porque o limite é o próprio capital".

Os mais pessimistas dirão que o capitalismo mudou para pior. Esta é a finalidades deles. Teremos outra grande recessão e a miséria será maior para sempre. Os otimistas - se é que sobrou algum - e os menos pessimistas talvez vejam esta nova crise de forma menos sombria.

A Quebra de 1929 levou ao Welfare State, estado do bem-estar, que durou umas boas quatro décadas. Por que não é possível admitir agora algum controle da sociedade sobre o capital financeiro? E por que não admitir políticas globais de comunhão da imensa riqueza produzida pelos avanços da tecnologia e da ciência?

Não parece fazer sentido que uma economia que depende cada vez menos do trabalho insista em padrões primitivos de distribuição e em desperdiçar o imenso ganho de produtividade em crises sucessivas e guerras sem fim.

Afinal, o mundo real continua no mesmo lugar, produzindo suas misérias e maravilhas. Por que não botar algumas fichas em nossa capacidade de ir em direção do que fazemos e podemos fazer de melhor?

Depois do enfraquecimento do estado do bem-estar e da derrocada do comunismo soviético, o triunfalismo liberal quis enterrar a esquerda e buscou desqualificar qualquer outra crítica ou proposta alternativa. Tudo que não glorificasse o deus mercado era jurássico e insano.

Ok, o Muro ruiu de podre. O estatismo coroou a imoralidade e a incompetência. Muitas políticas para proteger os desprotegidos falham e acabam superprotegendo os já protegidos.

Mas é deplorável que esse fracasso tenha sido usado para penalizar políticas sociais e para promover a farra do crédito sem lastro. E pior, para sufocar a divergência e indultar liminarmente os que se locupletam da "exuberância irracional" e os que fecham os olhos diante da orgia financeira globalizada.

E agora? É pouco provável que a arrogância triunfalista liberal sobreviva ao choque dessa crise. E é certo que de nada vale trocar uma arrogância por outra. O fracasso do liberalismo desregrado não transforma em sucesso o fracasso do intervencionismo voluntarista.

O mundo já vai ficar melhor por conta do convencimento de que não há sistema perfeito. E sobra o dever de espernear para que o custo da socialização do mega-rombo não fique para os mais pobres. Talvez essa seja a maior e mais urgente missão política da hora.

Vale, também, estar atento à sedução do endividamento. Pelo menos aqui no Brasil, o comércio e as financeiras continuam distribuindo dinheiro fácil, a perder de vista. É bobagem querer demonizar o crédito. Mas é bom ter cuidado para não empenhar a alma.

A farra do crédito vem de longe e o primeiro aviso público da crise chegou na metade de 2006, com a disparada dos juros imobiliários nos Estados Unidos. Desde então, cada capítulo da novela parece validar outra formulação de Deleuze (para ficarmos no mesmo filósofo). Ele observou que o homem endividado é o sujeito dessa versão contemporânea do capitalismo, que depende cada vez menos da coerção explícita para exercer o controle social. No lugar do medo do inferno ou da prisão basta agora a alegria do cartão de crédito.



Comentários

26/09/2008 11:58 | Americo Vermelho 2

Tojal,

Como sempre, um olhar por um angulo diferenciado....tenho acompanhado seu blog (apesar de ser a primeira vez que deixo um comentario) e concordo com seu otimismo realista: tambem acho que a constatação de que não há sistema perfeito já é um avanço, apura o olhar sobre os movimentos da sociedade moderna. Como diz o Obama, não existe somente a "Wall Street"....há também a "Main Street" que, desta vez, não quer pagar sozinha a conta e, tambem, quer tomar conta do dinheiro que inevitavelmente terá que ser injetado....
Grande abraço
Americo

25/09/2008 13:17

Muito bom, Tojal.
E ainda haviam dito que a História tinha acabado, né? Se isto não é História, o que é?
Grande abraço!

25/09/2008 12:06 | Patricia Bentes

Concordo totalmente! Sobrou eu de otimista - o mundo vai ficar melhor com certeza!

25/09/2008 11:27

Grande Altamir Tojal, meu amigo e companheiro de idéias e pensamentos, sempre pertinente, incisivo, criativo e inovador em sua escrita de texto analítico, reflexivo e amadurecido no deslocamento de um convite ao diálogo pautado no que é "humano, demasiado humano". Gostei do seu texto. Abração!

24/09/2008 13:23

O presidente francês, Nicolas Sarkozy (de direita), falou sobre este assunto ontem, durante um jantar de gala em NY. Em discurso diante dos convidados, virou-se para sua sublime esposa, Carla Bruni (que é - ou pelo menos já foi - socialista), e disse:
- Isso é, sem dúvida, um dos meus pontos fracos, Carla, mas eu nunca fui de esquerda. Ainda assim, amo a justiça e considero injusto que aqueles que nos conduziram a esta crise não assumam suas responsabilidades. Liberdade não significa "lei da selva".

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