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O jogo para sempre e o gênio ressurgido

03/08/2011 | Comentários (2) | Recreio | Por: Altamir Tojal

Para comemorar uma semana do jogão Flamengo 5 x 4 Santos – 27 de julho de 2011: Texto de Pedro Duarte (*) e vídeo com a íntegra do jogo.

Existem momentos da vida que se destacam do tempo. São momentos raros que valem por si mesmos, independem do destino que dali vai surgir. Os eventos decorrentes não importam. Muitas vezes, nossas vidas vão seguir outro curso, melhor ou pior, mas não faz diferença: aqueles momentos serão lembrados para sempre como se pairassem acima de todos os contextos.

O jogo entre Flamengo e Santos proporcionou um momento assim. Não interessa se um dos dois vencerá o campeonato. O jogo que fizeram vale sozinho. Provavelmente, valerá na vida mais do que vários jogos juntos vão valer em números. Raramente uma partida antecipada por tanta expectativa cumpre o que promete como esta. Mais ainda: supera todas as previsões. O placar já mostra o extraordinário do jogo: Flamengo 5 x 4 Santos. Mas números nunca são suficientes para contar uma história. Então, vamos a ela.

O locutor da partida, antes de seu início, comentava sobre os grandes jogadores que estariam em campo, e ainda não citara Ronaldinho Gaúcho quando a câmera da tv finalmente o focou. Precisou, aí, dizer que ele não deixava de ser uma grande atração... Sua condescendência tinha razão, já que Ronaldinho ainda não conseguira achar um estilo para o atual momento tardio de sua carreira. Ainda. Pois, exigido por um jogo cujo tamanho no presente fazia jus a seu tamanho no passado, ele provaria sua genialidade.

De outro lado, estava a juventude santista de Neymar. É ela que domina o início do jogo. Atrapalhada, a equipe rubro-negra perde bolas na saída de jogo. O zagueiro Welinton, inseguro, falha. E pronto. O jogo está 2 x 0. Logo depois, o atacante Deivid, do Flamengo, tem a chance de espantar o mau começo, mas perde um gol pois, na frente da meta adversária sem goleiro, vê cada uma de suas pernas tirar a bola da outra. A esperança de voltar ao jogo transformava-se na confirmação de que não seria o dia da equipe carioca.

Momento de gala. Neymar arranca, dribla dois, passa a bola, recebe de volta em grande velocidade, toca pelo lado esquerdo do zagueiro rubro-negro ao mesmo tempo que o ultrapassa pela direita, fazendo uma meia-lua e pegando a bola adiante. Completa para o gol. Não era só um gol. Neymar não é Pelé, longe disso, mas fez um gol digno do maior da história. A Vila Belmiro parece fadada a acolher maravilhas da arte do futebol.

Embora o jogo tivesse um jeito e um ritmo fora do normal, tudo parecia decidido. Eram 25min e já estava 3 x 0, com Neymar, a estrela, cheio de brilho. Mas o Flamengo é o time do otimismo insano – que é o único tipo respeitável, aliás. Os flamenguistas parecem acreditar mais no seu time quanto pior é a sua situação. Se 2 x 0 tão cedo era um placar improvável de ser revertido, 3 x 0 parecia mais. Parecia impossível. E é aí que mora o perigo. Pois é essa a situação preferida dos rubro-negros, que têm um gosto meio sádico pelo qual o prazer só é prazer se tiver vindo junto com sofrimento. E muito.

E eis que de repente, não mais que de repente, o goleiro Rafael do Santos tenta pegar um cruzamento rasteiro de Luis Antonio – grata jovem surpresa no time rubro-negro – vindo da direita e acaba, sem querer, desviando a bola do zagueiro que a cortaria. Ela sobra embaixo do travessão. E encontra os pés, prontos, de Ronaldinho Gaúcho. A bola procura o craque. Ela gosta de ser bem tratada. 3 x 1. E a certeza de que o jogo era anormal. Mais do que bom tecnicamente, era louco, imprevisível, emocionante.

O Flamengo ganha força e, logo, Thiago Neves, após outro cruzamento da direita, agora pelo alto, entra com um vôo rasante para cabecear a bola resolutamente para baixo, com força, para dentro do gol. 3 x 2. O jogo estava solto, como raras vezes se vê hoje em dia. Parecia coisa de antigamente: placar elástico, os ataques se sobrepondo às defesas, sem faltas. Os técnicos, nos bancos, se desesperavam. Os torcedores, nas arquibancadas, se deliciavam. Pois percebiam que, embora nervosos com qual seria o desfecho, estavam diante de algo maior, mais importante: o verdadeiro futebol.

Segue o jogo e, quando parecia que o Flamengo desencantaria, Neymar sofre um pênalti de Willians pelas costas. Elano – que isolara um pênalti para fora dez dias antes na Copa América, pela seleção brasileira – vai bater, aclamado pela torcida. Devia querer provar alguma coisa. Resolve bater fazendo graça. Dá a cavadinha e perde. Felipe pega. Mas isso não bastava. Pois a cavadinha é uma batida que, se dá certo, humilha o goleiro. Felipe queria vingança. Depois de acalmar a bola com as mãos, ele a solta e sai fazendo embaixadinhas! Inacreditável.

O técnico do Santos costuma dizer que o futebol pune quem tem a chance de matar o jogo e não o faz. Não deu outra. Elano e o Santos ficam sem moral e se encolhem, como se dois pênaltis fossem perdidos ao mesmo tempo: o do jogo e o outro, da Copa América. O Flamengo aproveita, vai ao ataque. Escanteio pela esquerda. Ronaldinho põe a bola na cabeça de Deivid – o péssimo atacante. Gol. Deivid recusa-se a comemorar, por ser contra um time pelo qual já atuou. O Flamengo merece atacante melhor. Mas não importa. Empate milagroso, jogo épico. Fim do primeiro tempo. 3 x 3.

Intervalo. Perguntado, sobre o empate heróico, Ronaldinho responde burocraticamente: “isso é Flamengo”. Verdade. Mas, depois, deixa escapar uma grande gargalhada. Era isso, mais que tudo. O jogo estava louco. E divertido. Indagaram Muricy Ramalho, técnico do Santos, se o jogo era bom. Com ironia, ele disse que, para o público, sim. Implicitamente, dizia: para mim, não. Chato. Isso dava a entender que os técnicos podiam tentar travar mais a partida no segundo tempo. Só que o jogo era maior do que eles.

Voltam os times. De cara, Neymar, em grande atuação, marca outro para o Santos. Mas o Flamengo não entregaria a partida fácil assim. Havia ainda mais um gênio em campo, com dribles desconcertantes: Ronaldinho. Seu maior golpe estava por vir: a inesquecível batida de falta. Ele correu e, surpreendendo a todos, esperou que a barreira adversária pulasse para tentar tirar a bola que supunha vir por cobertura. Quando a barreira saltou, porém, ele deu um chute por baixo dela – rasteiro, devagar, mas preciso, sem defesa. Se gênio é o que não obedece a modelos prévios conhecidos, como dizia o filósofo Kant, não há dúvida: Ronaldinho é gênio. Quem o disse foi o outro gênio, Neymar, após o jogo.

Embora Neymar continuasse a ganhar jogadas no ataque, deixando enlouquecidos os zagueiros, algo indicava que, se alguém fosse vencer, seria o Flamengo. E assim foi. Em rápido contra-ataque, Ronaldinho Gaúcho pega a bola na entrada da área e dá um chute em curva. Bola no canto esquerdo do goleiro santista. Flamengo 5 x 4 Santos. Fim da partida. Ao menos ali, em campo. Na memória, esse jogo continua, talvez para sempre. Pois ele é um desses raros momentos da vida que se destacam do tempo.

(*) Além de ser da Nação Rubronegra, Pedro Duarte é professor de filosofia.
 



Comentários

05/10/2011 08:29

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